É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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Luciano, onde você está? Inserido no ou fora do contexto?

29/05/2026 - 06:00
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Roberto Sarmento Lima - *Titular emérito de Literatura Brasileira da Ufal

O leitor que não entende muito de regência verbal talvez não goste do título desta crônica, por lhe parecer, na sua segunda parte, algo confuso. O que esse “no”, que é uma contração da preposição “em” e do artigo “o”, está fazendo aí, sem o substantivo que deveria vir logo após? Quem está inserido está inserido em alguma coisa ou em algum lugar, não? Relendo a frase, ele saberá adiante dizer que esse lugar é o tal “contexto” que aparece depois de outra contração, “do”, contração da preposição “de” e do artigo “o”. Portanto, pensará esse leitor, o autor da crônica deveria ter dito logo, sem mais conversa, “Inserido e fora do contexto”.

Não, apressado leitor, como diria Machado de Assis, de quem herdei esses pantins; a regência de “inserido”, particípio do verbo “inserir”, reclama a preposição “em”, enquanto a locução prepositiva, “fora de”, já carrega consigo a preposição “de”, conforme se vê na própria locução. Assim, com termos coordenados entre si — eis aí, no meio, a conjunção alternativa “ou”, símbolo da coordenação, processo sintático que prevê igualdade entre os seus —, expõe-se a desigualdade sintática dos termos, dadas as regências distintas do particípio e da locução prepositiva agrupados. Desse modo, fui obrigado a separar as respectivas preposições que entram nessa construção: “Inserido no” e “fora do contexto”.

Por falar em desigualdade e em desigualdade social, por exemplo — o Brasil avulta como rei de desigualdades, nunca vencidas, entra século e sai século —, não tenho mais ouvido a clássica expressão “inserido no contexto”, que borbulhava durante a ditadura militar, aquela de 1964, e que se achava aos borbotões nas edições do Pasquim e no vocabulário de Leila Diniz, sempre atenta às transgressões dos códigos e dos costumes.

Não se ouve mais isso, a não ser lá, no livro das memórias das décadas de 1960 e 70. A expressão tirou férias. Mas ressurgiu no presente século, embora remodelada. Agora só se ouve dizer “fora de contexto”. Quem a diz até cansar são os políticos e os empresários na hora de explicar o inexplicável.

E, por respeito à brevidade desta página, cito o emblemático Luciano Huck. Recentemente, para tentar convencer o Brasil de que não disse que “o Bolsa Família só serve mesmo para estimular as pessoas a não quererem trabalhar”, optou por dizer que a frase foi retirada de contexto. Formulada essa joia de frase num “evento fechado” (mesmo?), fez de conta — não é possível que não tenha sido um ato consciente — que não sabia que, com esse dinheirinho, os mais pobres ainda conseguem pagar uma conta de energia e uma feira. Ganhou o cinismo.

As elites brasileiras, então, se não sabem disso, precisam estudar. Estudar amplamente a realidade social brasileira, um pouco de gramática e uma gota de empatia e consideração por esse povo sofrido e espoliado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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