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Kleber Bene

Jornalista e gestor público

Conteúdo Opinativo

Quem trouxe Daniel Vorcaro e o Banco Master para Alagoas?


Os gestores do IPREV sabiam, assumiram o risco e transferiram o prejuízo diretamente para o bolso da população. Informações exclusivas obtidas por esta coluna revelam a engenharia financeira desenhada nos bastidores do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (IPREV). O levantamento do sigilo dos autos no STF, ocorrido em 11 de setembro de 2026, escancarou uma sangria que morde diretamente o futuro do funcionalismo: R$ 97.000.000,00 pertencentes a aposentados e pensionistas foram enterrados em Letras Financeiras do Banco Master S.A.

A cronologia do dolo é cirúrgica. O primeiro e mais pesado repasse ocorreu em 6 de dezembro de 2023, quando o então diretor-presidente do IPREV, Ronnie Reyner Teixeira Mota, autorizou a transferência de R$ 80.000.000,00. Naquela exata data, o Banco Master sequer constava na lista exaustiva de elegibilidade do Ministério da Previdência Social. Não satisfeitos, em 13 de maio de 2024, os gestores operaram uma segunda aplicação de R$ 17.000.000,00. A manobra fez com que Maceió concentrasse surreais 20% de todo o patrimônio líquido do seu fundo de previdência em uma única instituição financeira, uma aberração que desafia qualquer manual de conformidade e cuidado com a coisa publica.

As garras da Polícia Federal avançam sobre o núcleo político

Na decisão da 13ª Vara Federal de Alagoas, o juiz Raimundo Campos Jr. apontou o ex-prefeito João Henrique Caldas, o JHC, como o responsável legal direto pela unidade gestora. JHC, que hoje se movimenta para a disputa ao Governo do Estado, detinha a caneta exclusiva para nomear e exonerar os operadores do esquema. Enquanto a caneta assinava, o relatório da PF apontava uma "cegueira deliberada" da cúpula, onde reuniões de conselho ocorriam com quórum flagrantemente insuficiente para validar os aportes de risco.

Se o fundo foi jogado na roleta de um mercado sob severa investigação, a liderança do IPREV operava uma vida de ostentação desmascarada pelo COAF. Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) detalham movimentações incompatíveis com o salário oficial de R$ 16.500,00 (ou R$ 16.759,00 brutos) do ex-presidente: depósitos fracionados em espécie incluindo uma bolada de R$ 300.000,00 em maio de 2023 e outro aporte de R$ 170.165,00, além de movimentações em dinheiro vivo nos valores de R$ 169.180,00, R$ 95.000,00 e R$ 83.500,00. O padrão se estende à compra em dinheiro vivo de um carro de luxo por R$ 391.670,00 (com R$ 160.000,00 entregues em cédulas) e um apartamento de R$ 422.525,00 pago integralmente à vista. A PF agora também mira as contas do secretário municipal da Fazenda de JHC, João Felipe Alves Borges, cujo sigilo bancário e fiscal foi quebrado sob suspeita de integrar o consórcio de repasses.

O buraco deixado em Maceió é o que a PF classifica como "lesão ao erário com impacto intergeracional"

A conta do colapso do Master começou a ser cobrada na ponta, somando-se à herança maldita dos R$ 300 Milhões volatilizados da concessão de água e aos R$ 1.7 bilões do questionável acordo com a Braskem.

Para proteger a engrenagem, operou-se nos bastidores municipais uma operação abafa sem precedentes. Mas a cortina de fumaça desmorona em Brasília. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado é a trincheira que impulsiona o inquérito que agora avança. E é no ambiente nacional que o cinismo político se completa: enquanto o grupo local tenta silenciar o escândalo em Alagoas, suas alianças nacionais fecham fileiras em defesa do senador Flávio Bolsonaro. Flávio é formalmente investigado por suspeitas de crimes relacionados ao financiamento do filme biográfico Dark Horse, após a Polícia Federal e relatórios do COAF apontarem negociações de R$ 134 milões, diretamente com o próprio banqueiro Daniel Vorcaro.

O Tabuleiro Desnudado: Responsabilidade contra a Linha de Frente do Abafamento

O eleitor alagoano está diante de um tabuleiro completamente desnudado. De um lado, sobressai a seriedade fiscal de homens públicos testados e o compromisso ético de uma Assembleia Legislativa coesa e alinhada com a defesa intransigente da coisa pública. Do outro, assiste-se ao cinismo de uma gestão municipal que tratou o fundo previdenciário como se fosse uma mesa de bet na internet, operando sob a conivência da bancada majoritária da Câmara de Vereadores de Maceió da qual se salvam, por dever de justiça, as poucas e bravas vozes de oposição que se puseram firmemente contrárias aos desmandos e tentaram, sem trégua, fiscalizar o suor dos servidores. O bloqueio de bens dos investigados já bateu à porta e a máscara da impunidade caiu de vez. Alagoas agora exige a resposta principal: quem intermediou o pacto espúrio que entregou o patrimônio de nossos trabalhadores ao Banco Master?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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