Silêncio de Fachin, cifras do Master e algoritmo da OAB expõem crise
A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, de adiar por tempo indeterminado a reunião com a OAB sobre a crise institucional da Corte não é um mero desalinhamento de agendas. O recuo, revelado pela coluna Grande Angular do Metrópoles, expõe o esgotamento de um modelo de interlocução pautado por conveniências corporativistas. De nada adiantará qualquer tentativa de pacificação nacional enquanto as instituições operarem como reféns mútuas de interesses políticos. O "chá de cadeira" aplicado por Fachin sinaliza que o caminho da atual cúpula da Ordem está profundamente errado.
Enquanto a normalidade institucional em Brasília insistir em ser desenhada entre cafés cordiais, agendas de compadrio político e graves escândalos, a imagem da Justiça continuará diminuída e complacente. No entanto, o isolamento político da Ordem perante o STF ganha contornos ainda mais dramáticos quando confrontado com o submundo de seus próprios convênios internos e das relações comerciais de seus caciques.
O Balcão de Negócios e o Clamor por Diretas Já
O racha que ameaça implodir a representação da classe encontra seu combustível no vácuo ético da governança atual. Fontes de bastidores apontam que a insatisfação da base atingiu o ponto de ebulição, tornando imperativa a defesa de eleições diretas já para o Conselho Federal da OAB. De acordo com interlocutores, o atual sistema indireto blindou uma estrutura onde existiria, inclusive, um "preço para cargos" no conselho da ordem, asfixiando e alijando do processo qualquer advogado que não seja diretamente alinhado à cúpula dominante.
Essa engrenagem de exclusão política ganha contornos financeiros nítidos com as recentes revelações da CPI do Crime Organizado. Dados fiscais enviados pela Receita Federal apontam que os escritórios de dois ex-presidentes do Conselho Federal da OAB receberam cifras milionárias do Banco Master:
Marcus Vinicius Furtado Coêlho (presidente da OAB entre 2013 e 2016): sua banca recebeu R$ 27,5 milhões da instituição financeira.
Felipe Santa Cruz (presidente da OAB entre 2019 e 2022): seu escritório recebeu R$ 1,55 milhão em dois repasses.
Os repasses ligam a elite da advocacia institucional à defesa de interesses do banco e de seu fundador, Daniel Vorcaro, evidenciando como a entidade se transformou em um poderoso hub de interesses privados enquanto a advocacia de chão de fábrica padece.
O Perigo Invisível dos Dados e do Compliance
O elo que interliga o refinamento de dados em massa a essa elite blindada — que opera transações bilionárias envolvendo direitos creditórios e precatórios — transborda para a tecnologia. O exemplo mais alarmante é o convênio firmado pelo Conselho Federal com a startup Forlex para a distribuição da ferramenta OpenDetector a mais de 130 mil advogados. A revelação de que o sócio-administrador da empresa carrega uma pesada condenação em primeira instância a mais de 390 anos de prisão por crimes cibernéticos colocou a instituição em um verdadeiro furacão moral.
Embora vigore a presunção constitucional de inocência, o fato é inadmissível no tribunal do compliance. O avanço de investigações que remetem a operações internacionais com o FBI torna a omissão da alta cúpula da Ordem indefensável. Como uma parceria dessa magnitude, que mexe com o ecossistema de dados da advocacia nacional, foi gestada sem uma due diligence mínima? Sob o manto do voluntariado algorítmico, entregam-se teses, metadados e estratégias confidenciais de milhões de cidadãos a uma plataforma privada. No mercado digital, a máxima é inescapável: se o produto é de graça, o produto é você.
Essa assimetria escancara uma fratura exposta. O Judiciário investe pesado em blindagem tecnológica — com o STF exigindo supervisão humana estrita e o STJ barrando o uso de IAs generativas sem controle —, enquanto a OAB abre uma avenida sem cancelas para a exposição de petições. Pune-se rigorosamente o pequeno advogado de balcão por qualquer suspeita de captação de clientela, mas não se auditam os grandes negócios tecnológicos e financeiros fechados por seus dirigentes.
O Vácuo das Contradições
O desinteresse de Fachin em receber a atual liderança da Ordem reflete que o tribunal percebeu o perigo: a discussão legítima não deve ficar restrita a uma cúpula isolada e mercantilizada. O diálogo precisa expandir-se para os diversos grupos representativos da advocacia, como o Grupo Prerrogativas e tantas outras vozes que hoje exigem a democratização interna da instituição.
Ao adiar o encontro, o STF deixa a atual gestão da OAB falando sozinha no vácuo de suas próprias contradições. Diante de investigações que avançam, cifras que assustam e omissões que se acumulam, a advocacia brasileira não pode continuar como figurante passiva de uma entidade loteada. A redemocratização da OAB, por meio de eleições diretas, não é mais uma bandeira de oposição: é uma medida de sobrevivência para que a classe recupere sua relevância e sua dignidade na defesa da Constituição.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



