Uma cicatriz da guerra, nas terras de Porto Calvo
Pesquisadores do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) descobriram na área urbana de Porto Calvo marcas de um forte construído há 400 anos, durante as invasões holandesas. Esta descoberta só foi possível graças ao uso de técnicas modernas, fotografias aéreas tiradas por drone e a sobreposição das imagens a mapas da época da construção. O resultado abre caminhos sobre os rumos da Arqueologia na região norte alagoana.
Alagoas ainda fazia parte de Pernambuco quando as terras de Porto Calvo estavam em meio a uma batalha que mudou os rumos da história do Brasil: a ocupação do Nordeste pelos holandeses, considerado o maior conflito político-militar do período colonial brasileiro.
De um lado estavam as tropas de Portugal, considerado o ‘dono’ do Brasil; do outro, a poderosa Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Domingos Fernandes Calabar conhecia muito bem as terras brasileiras e se aliou aos holandeses. Foi sentenciado à morte em 22 de julho de 1635.
Todo este passado de guerras permanece vivo na memória do povo de Porto Calvo, transmitindo as histórias de geração a geração. Usando estas informações, o levantamento aerofotogramétrico (mapeamento da superfície usando câmeras aéreas) mais a cartografia, os pesquisadores Yuri Menezes, Marcos Antônio Gomes, Doris Walmsley e Veleda Chistina descobriram que a malha urbana de Porto Calvo preservou o traçado das estruturas de defesa da antiga povoação de Bonsucesso, cercada pelo forte de mesmo nome. Marcas que, a partir da reconstituição, permitem descobrir como portugueses, holandeses e brasileiros prepararam os seus sistemas de defesa contra invasões.
Usando fotos tiradas por drone, mapas antigos e modelos digitais aplicados à Arquelogia foi possível perceber o ‘símbolo da guerra’. Tudo isso, lógico, também revelado pelo potencial de camadas de terra mostrando antigas superfícies de ocupação e vestígios da guerra da antiga população. O resultado você confere nas imagens.
Uma das pistas está na sabedoria popular: o topo da colina, onde hoje está o hospital municipal, é conhecido como Alto da Forca ou do Forte. Forca porque Cabalar foi sentenciado ali; forte por causa do antigo Forte do Bonsucesso, construído em 1634 pelo nobre italiano conde Bagnuolo por determinação do governador-geral do Brasil e governador-geral de Pernambuco Matias de Albuquerque. Do local, os portugueses deveriam acompanhar todas as embarcações no Rio Manguaba e os movimentos suspeitos dos holandeses.
O forte foi erguido após o cerco ao Arraial Velho do Bom Jesus, em Recife. Por trás dos muros, havia muita roça e gado. Documentos mostram que o forte protegia a ‘igreja velha’, anterior à ‘igreja nova’ (Nossa Senhora da Apresentação) onde o futuro líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, foi batizado.
No início, era uma estrutura precária, de terra e madeira. Em março de 1635 os holandeses expulsaram os portugueses do forte, reforçando e ampliando a estrutura. Nesta época foram construídas a igreja nova e duas casas grandes.
Quatro meses depois, julho de 1635, as tropas de Matias de Albuquerque reconquistaram o lugar, a esta altura uma local com 420 soldados. Nele estava Calabar, capturado e morto pelos portugueses.
No dia seguinte, as tropas de Portugal seguiram para o Sul e o forte foi abandonado. Em 24 de julho os holandeses voltaram a Porto Calvo.
Janeiro de 1636. O forte foi reocupado pelos portugueses, reformado para esperar a vingança dos holandeses pela morte de Calabar. Agora, eles eram liderados por Maurício de Nassau. Que, de fato, reconquistou o forte para a Holanda em 1637 na Batalha do Comandatuba. Eles ficaram até 1645 quando os portugueses reconquistaram o forte, pela última vez. A seguir, o povo pôs abaixo a estrutura que atraiu tanta guerra e sangue a Porto Calvo.
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