colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

Do Oceano Atlântico para o Velho Chico

31/01/2026 - 06:00
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Sempre repito que Deus é bom conosco. Apesar das perseguições da Mesa Diretora da ALE-AL que sofremos desde a juventude, nossa vida particular é abençoada. Criamos quatro filhos, estamos velhos, lutando com as doenças, mas felizes em nossa casa, construída com muito sacrifício.

Imaginem vocês dois velhos morando em uma casa rústica ao lado do Oceano Atlântico, podendo pagar pessoas para nos ajudarem. Os filhos, apesar de viverem em outras cidades, sempre estão conosco acompanhando os dois idosos.

Temos uma filha que mora em Petrolina bem pertinho do Velho Chico. Como o pai não podia subir escadas, ela construiu uma suíte no andar térreo, ao lado do Rio São Francisco.

Escrevo este artigo ouvindo os pássaros, olhando o rio correndo calmo e acompanhando as pessoas que vivem perto dele.

Meu pai era apaixonado pelo rio que vem de Minas Gerais e atravessa boa parte do nosso estado. Falava dos peixes, do caminho do rio, da cidade de Penedo e outras mais. Adorava viajar pelas cidades que iam de Penedo a Piranhas e chegava em casa cheio de camarões, melancia, umbu e peixes pequenos.

Nossas férias eram passadas em Penedo e toda segunda-feira íamos de navio até Piranhas. Meu avô era imediato do navio Comendador Peixoto e, apesar de ser um homem rústico, era muito bondoso conosco, mesmo sendo duro.

Já nasci em Maceió, quando meu pai foi aprovado num concurso do Estado. Agora era o mar que nos acompanhava. Fomos morar em Jaraguá e perto do Oceano Atlântico. A praia da Avenida não era poluída e apreciávamos as delícias do mar. Boa vida!

Crescemos, casamos e passamos a conhecer novas terras. Por conta da profissão do marido, que era militar, moramos em vários estados. Fomos absorvendo vários costumes por onde andamos. Nas vilas militares éramos os “aratacas”. Nossos filhos eram sabidos e logo se adaptavam aos recentes amigos. Havia certa reação aos nordestinos, mas eles logo se destacavam nas escolas e minha casa era cheia de amigos.

Certa feita, um aluno carioca jogou massa de tomate na blusa do João. O irmão mais velho ficou chocado. Levou o mais novo para perto do menino que o agrediu e mandou que o João fizesse o mesmo. Fomos chamados à escola e logo o Rubiãozinho recebeu o apelido de Lampião. Hoje, tal fato, seria bullying.

Outro caso irritante era a zombaria que faziam do nosso sotaque. Tirávamos de letra, mas ficávamos irritados.

Assim, passamos por vários estados e hoje, velhos, moramos numa pequena cidade perto do mar. Passamos períodos em Petrolina, perto do Velho Chico.

Podemos dormir descansados, com despesas pagas, remédios comprados, filhos nos assistindo, acompanhando as notícias do Brasil e do mundo.

De vez em quando tem um batizado, um casamento ou qualquer outra solenidade. E lá vão os dois velhinhos para não perderem os bons momentos da família. Há, também, os momentos tristes. Nem sempre podemos comparecer. Rezamos pelos que se vão.

Enfim, chegamos à reta final. Esperamos que o bom Deus nos leve sem muito sofrimento. Quietos, ao lado do Oceano Atlântico ou do Velho Chico, rezamos, lemos, vemos TV, usamos nossa piscina e agradecemos a Deus pela nossa boa velhice.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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