colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

O triste caminho do fim

17/01/2026 - 06:00
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Chegando aos oitenta, vamos entendendo que o fim está próximo. Não sabemos o dia e a hora, mas entendemos que está perto. A vista encurta, as pernas ficam fracas e passamos a depender dos outros.

No campo profissional, somos tratados como velhos. Os dirigentes nos enganam, zombam de nós, não cumprem os acordos firmados. Esquecem que, se não morrerem antes, ficarão velhos.

Já não podemos sair sozinhos, precisamos do auxílio dos filhos e netos. O pensamento voa! O que encontraremos do outro lado? Para onde iremos? Acordamos, na madrugada, pensando no pequeno futuro que nos resta.

No Brasil, o idoso não é respeitado. As pessoas falam nele como se não existisse, como se não entendesse nada.

Nos bancos, se o velho passar de oitenta anos, não tem direito a nada. Só cobranças! Recentemente, a Caixa fez um seguro no meu nome sem que eu nada tenha assinado. A moça que me atendeu nem me olhava nos olhos. “É um seguro sênior”, dizia ela. Já paguei quarenta mil. Se morrer hoje, meus filhos receberão dezoito mil. E me entregou uma apólice sem assinatura.

Para uma pessoa que lutou a vida toda por seus direitos, é uma afronta.

Os mais jovens nos explicam algo e perguntam: “Entendeu vovó?”.

Os casos avançados de namoro nos assustam. Vemos jovens de 17 anos morando juntos. Acabam um relacionamento hoje, começam outro amanhã da mesma maneira. Já não existe mais o sonho de casar e viver juntos.

Vovó, diz um neto querido, vou noivar. Não entendi, digo eu. Já vivem juntos há três anos. E rimos juntos.

Os empregados tentam nos enganar. A senhora me deu tal ordem. Mas eu não dei. Rimos juntos, mas a mágoa fica.

Chegou a hora de falar da morte.

A senhora quer ser cremada? Quer ir para a UTI? Digo logo o que penso. Sei que se preocupam comigo. E rezo, peço a Santo Amaro: Leve-me dormindo!

Nada de hospital, nem de UTI. Preciso parar de pensar na morte. Quero viver!

Ainda existem coisas boas na velhice. Uma delas é a prioridade. Não entrar em filas. Recentemente, fui ao banco com minha filha. Havia muita gente. A recepcionista me fez passar na frente. Senti que um rapaz não gostou. Rindo, perguntei se era mais velho do que eu. Ele respondeu: “Não, mas chego lá.”. Bati no ombro dele e ri!

Tenho sorte de ter chegado à velhice com lucidez. Entendo tudo o que se passa ao meu redor. Esqueço pouca coisa. Gravo números e nomes. Os que trabalham comigo não me enganam.

Bom, muito bom, é o amor dos filhos. Os cuidados que têm conosco. Chegam a ser exagerados, mas são muito cuidadosos. Deixam suas casas para cuidarem dos seus velhos teimosos. Eles não percebem, mas seus pais estão com medo de hospitais, da UTI, do cemitério. Chegaram ao fim do caminho.

Pensamentos mórbidos nos assustam. Para que poupar? Valeu a pena lutar tanto? As amizades perdidas eram verdadeiras? Vamos encontrar os que se foram? Deixaremos boas lembranças? Não encontramos respostas.

Enfim, seja o que Deus quiser.

Vamos vivendo no embalo das ondas de Paripueira. Cheios de amigos e parentes. Rezando pelos que se foram. Pedindo forças a Santo Amaro. Nosso sonho é que os mais jovens se lembrem da tia Alari como a velhinha feliz e sabida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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