O dom da vida
Os amigos estão indo embora. Começo a pensar que estou na fila. Logo, logo vou ser chamada.
Preciso estar preparada. Acordo pensando como será esse meu caminho.
Antes de tudo, devo agradecer a Deus pela vida que me proporcionou.
Tive uma infância feliz. Pais maravilhosos, sete irmãos saudáveis. Morávamos em bairros bons, numa pequena capital. Minha adolescência foi das melhores, estudei em bons colégios.
Casei, sou feliz, tive quatro filhos. Sobrevivi à perda de um deles. Cheguei à velhice brigando por meus direitos. Enfim, tenho um saldo positivo.
Sempre falo em tudo o que é saudável, mas existem as maldades humanas. Sofri muito com perseguições desde que comecei a trabalhar no Legislativo. Pelo meu espírito renovador, sempre vi o que estava errado e fazia mal à categoria. Reclamava, reclamava, reclamava…
Os dirigentes se incomodavam e procuravam uma maneira de me punir. Até que apareceu um modo de lutar pelo que era certo: o sindicalismo.
Consegui proporcionar aos servidores do Legislativo várias vantagens indiretas: um plano de saúde, um clube de lazer e a sede do sindicato. Tudo isso com um grupo de amigos que me ajudavam. Tais fatos irritavam as Mesas Diretoras que nem sempre se preocupavam com o bem-estar de ativos e inativos.
Mesmo idosa e aposentada, não deixei de acompanhar a luta do Velho Sindicato para não perder o patrimônio deixado pelo nosso grupo. E tudo isso irritava os dirigentes que pensavam apenas neles mesmos.
Como castigar essa velha que nos denuncia e não para de defender os servidores? Pensavam os maldosos.
Só há uma saída: cortar o salário dela e fazer calar sua boca.
Pobres coitados! Irritaram a velha senhora e incentivaram a sua luta.
Outra maneira de castigá-la era dizer: judicialize. Sabem os poderosos que a justiça é lenta enquanto eles ficam com parte do salário dela.
Mas, como Deus é pai, a idosa tem uma família forte que a ajuda nas horas difíceis. Teve apoio de todos os lados: amigos, parentes, pessoas pouco conhecidas.
Através das redes sociais, a servidora das mais antigas do Poder Legislativo pode mostrar ao mundo o que acontece na Casa de Tavares Bastos.
Há um clima de horror, servidores perseguidos, as rachadinhas e muitas coisas erradas que não são corrigidas.
Dizem os amigos: eles não leem o que você escreve e riem da sua cara. Mas o mundo lê, toma conhecimento do sofrimento dos inativos do Poder Legislativo de Alagoas e quando o presidente aparece nas redes sociais, os comentários são negativos.
Entretanto, independentemente de tanta maldade, a vida continua.
A Velhinha das Alagoas é reconhecida por sua luta e pelo patrimônio que deixou para os companheiros.
Tem uma vida boa e dois lugares para descansar: ao lado do Velho Chico em Petrolina, Pernambuco, ou ao lado do mar em Paripueira, Alagoas.
Apesar dos cortes salariais, tem um bom plano de saúde e ainda pode pagar várias consultas.
Se os algozes pensam que podem maltratar a velha senhora, olhem para o céu, peçam perdão a Deus e esperem um bom castigo.
A Velhinha das Alagoas confia na justiça dos homens, que é lenta, mas é justa.
De joelhos, a velha Alari agradece a Deus pelo dom da vida.
Ele existe. Não duvidem!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



