colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O fosso eleitor-candidato


Uma pesquisa Datafolha encomendada pela Folha de S.Paulo, divulgada em 28 de junho de 2026, ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 139 municípios brasileiros nos dias 17 e 18 daquele mês (margem de erro de dois pontos percentuais; registro no TSE sob o número BR-09956/2026). O resultado: 68% dos entrevistados não souberam citar nenhum deputado federal em exercício e 75% não souberam citar nenhum senador. Há uma leitura confortável para esses números: a de que o brasileiro se afastou da política, tornou-se indiferente, prefere o espetáculo à substância. Essa leitura erra o alvo. Ela trata como causa aquilo que é, na verdade, consequência de um desenho institucional que torna a identificação entre eleitor e representante estatisticamente improvável.

O sistema proporcional de lista aberta, combinado a distritos eleitorais do tamanho de estados inteiros, dilui o vínculo de representação antes mesmo que ele possa se formar. Em Alagoas, São Paulo ou no Pará, um deputado federal é eleito por um universo de eleitores espalhado por centenas de municípios, muitos dos quais ele jamais visitará durante o mandato. Não é que o eleitor se recuse a acompanhar o trabalho de seu representante — é que, estruturalmente, ele nunca teve um representante identificável para acompanhar. Teve, sim, uma lista, um número de urna, um rosto em santinho de campanha, e depois, nada...

Compare-se isso a sistemas distritais puros, onde cada parlamentar responde por um território delimitado e um eleitorado finito. Ali, se dá o inverso, o parlamentar que luta para não ser esquecido. O que seria mortal para sua carreira. No Brasil, a lógica é inversa. O sistema não foi desenhado para que o eleitor conheça quem o representa — e sim, para otimizar a distribuição de cadeiras entre partidos e coligações. A proximidade entre representante e representado é, na melhor das hipóteses, um efeito colateral tolerado, não um objetivo do desenho institucional.

Essa distinção importa. Se o problema fosse cultural — um eleitorado desinteressado —, a resposta seria campanhas de conscientização, educação cívica, parlamentares. Exato o que o TSE e os TREs fazem. Mas o problema é estrutural, nenhuma dessas medidas resolve nada: elas tentam consertar com comportamento individual aquilo que é defeito de engenharia institucional.

A saída, portanto, não passa por pedir que os políticos “se aproximem do povo” — frase que soa bem em editorial, mas não resiste ao teste da aritmética eleitoral. Passa por discutir, com a coragem que o tema exige, mudanças no desenho da representação: distritos menores, listas fechadas com prestação de contas territorial, ou modelos mistos que já funcionam em outras democracias e vinculam claramente um representante a uma base geográfica identificável. Sem isso, seguiremos cobrando um vínculo eleitor-parlamentar que o sistema eleitoral, por construção, torna impossível de existir.

Enquanto se insistir em tratar como falha pessoal aquilo que é falha de engenharia institucional, não se fará nenhuma reforma capaz de mudar essa situação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


Encontrou algum erro? Entre em contato