Gasolina em Alagoas: a safadeza continua
Na semana passada alertamos aqui para o comportamento de gangue dos postos de gasolina em Alagoas. Matamos a cobra e mostramos o pau: o aumento dos últimos dias é coisa de cartel, de gangue organizada contra o bolso do consumidor. Relembramos os dados principais, que mostravam reajustes muito acima da média nacional, sem qualquer justificativa técnica, econômica ou logística.
Informamos também que o Procon iria realizar reunião na segunda para ver o que fazer. Fizeram. Soltaram nota no meio da semana dizendo que estavam fiscalizando os postos e que depois iam analisar as anotações dos fiscais etc. etc. Traduzindo: nada fizeram de objetivo.
Multas? Nenhuma notícia dos fiscais do Procon. Fechamento de postos? Nem pensar. Gasolina adulterada, “benzida” disfarçada de combustível de qualidade? Nenhuma ação efetiva. Preços astronômicos e subindo? Continuam. O que o consumidor vê é uma nota fria, uma reunião protocolar, e a vida seguindo com o bolso sangrando.
O consumidor está por sua conta. O governo federal fica berrando histérico na televisão que faz prender e arrebentar “ladravazes” de combustível, faz reuniões com procuradores e Procons, com promessas de resultados. Resultado?: nada. Neca de pitibiriba. Enquanto isso, o discurso heróico do Planalto não sai do papel. As operações da Polícia Federal aparecem nos telejornais como se fossem a solução, mas aqui em Alagoas ninguém viu um camburão na porta de posto nenhum. É só para a foto.
E a ANP, onde está? A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis tem poder de fiscalizar a qualidade do combustível, aplicar multas que podem chegar a milhões de reais e até interditar postos. Mas cadê a ANP em Alagoas? Some. Não aparece. Não divulga notas sobre operações no estado. Não impõe transparência na formação de preços. É como se a agência reguladora federal também tivesse um acordo tácito com essa gangue. Enquanto isso, o consumidor abastece com “benzida” disfarçada de gasolina e paga preço de combustível de primeira linha.
Os distribuidores também são parte central desse esquema. Eles entregam o mesmo produto para dezenas de postos, com notas fiscais que deveriam refletir custos semelhantes. No entanto, os preços finais nas bombas variam menos de cinco centavos entre um posto e outro — prova matemática de que há combinação. Se houvesse concorrência de verdade, os valores oscilariam muito mais. Mas não. Os distribuidores alimentam o cartel ao fornecerem o combustível com margens que já embutem o “acerto” entre os revendedores. É um sistema que começa na distribuição e termina no bolso do consumidor.
Falta transparência. Falta um painel público que mostre, em tempo real, o preço de compra dos distribuidores e o preço final praticado pelos postos. Falta uma atuação séria do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para investigar a formação de cartel. Falta vontade política para quebrar esse esquema que já dura décadas em Alagoas. Todo mundo sabe como funciona, mas ninguém mexe. Os órgãos de defesa do consumidor agem como se fossem meros espectadores. A imprensa denuncia, e eles respondem com notas vagas que não levam a lugar nenhum.
A guerra pode ser no golfo, mas os ladrões do bolso do contribuinte estão aqui, na esquina de casa, nos postos que aumentam os preços ao mesmo tempo, como se dessem um telefonema combinado. A gasolina está majorada em mais de 50% e fica por isso mesmo. Lembrando: a Petrobras produz 90% do petróleo que utilizamos aqui mesmo, em território nacional, a milhares de quilômetros do Irã. Não há desculpa geopolítica que sustente tamanha exploração contra o povo alagoano. O petróleo é nosso, a refinaria está no país, e mesmo assim pagamos preço de país em guerra.
Quando a Polícia Federal vai se mexer de verdade? Quando a Polícia Civil de Alagoas vai agir com força-tarefa? Esses aumentos abusivos e combinados não são meros descasos comerciais — são casos de polícia. Crime contra a economia popular, formação de cartel, adulteração de combustível, sonegação fiscal. Tudo isso está em jogo. Mas as autoridades tratam o crime organizado nos combustíveis como se fosse apenas uma “questão de mercado”. Não é. É caso para algemas, para operação de busca e apreensão, para quebra de sigilo bancário e telefônico dos donos de postos.
Enquanto isso, a população segue refém. O trabalhador que depende do carro para sobreviver perde cada vez mais do salário. O motofretista, o motorista de aplicativo, o pequeno empresário, todos estão pagando uma conta que não deveriam pagar. E os órgãos públicos fingem que estão fazendo alguma coisa. O Procon diz que fiscaliza, mas não divulga autuações. A ANP diz que monitora, mas não aparece. A polícia diz que investiga, mas não prende ninguém. O governo federal diz que combate o crime, mas na prática deixa os estados se virarem sozinhos.
A safadeza continuará enquanto não houver ação firme, articulada e implacável. Não basta nota de repúdio, não basta reunião na sede do Procon com direito a café e foto para o Instagram.
O que se exige é ação dura: multas pesadas que inviabilizem a operação dos postos infratores, interdição de bandeiras inteiras que participam do esquema, prisão dos envolvidos comprovadamente, cassação do CNPJ dos reincidentes, transparência total na formação de preços, e uma força-tarefa permanente envolvendo Ministério Público, Polícia Civil, Polícia Federal, ANP, Procon e Cade. Enquanto cada um ficar jogando a responsabilidade para o outro, o consumidor vai continuar sendo roubado na cara dura.
Chega de discurso. Queremos ação imediata. Queremos que os fiscais apareçam nos postos com caneta e multa na mão. Queremos que os promotores denunciem os donos de postos por formação de cartel. Queremos que os delegados quebrem o sigilo desses empresários e mostrem quem são os verdadeiros donos do esquema. Queremos que a ANP publique mensalmente os preços praticados por distribuidoras e postos, com cruzamento de dados que evidencie a combinação. Queremos que o governo federal pare de usar o combate aos “ladravazes” como propaganda eleitoral e comece a fazer operações de verdade aqui no Nordeste.
Alagoas não pode continuar sendo terra sem lei para os donos de posto. O povo já paga impostos demais, já sofre com o custo de vida alto, já enfrenta o desemprego. Não precisa também pagar o preço abusivo que essa gangue impõe todos os dias na bomba. A hora de agir é agora. A safadeza tem que acabar.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



