colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

A Farra dos Donos de Posto em Alagoas

15/03/2026 - 09:35
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O que está ocorrendo no momento em Alagoas com a gasolina nos postos do Estado tem nome e sobrenome: cartel, conluio de empresários que acham que consumidor é otário e o seu bolso caixa eletrônico. Segundo a Wikipédia, quem participa de um cartel é membro de um grupo que comete um ilícito antitruste (econômico) ou integra uma organização criminosa. Cartel é crime. E quem dele participa é criminoso. Por aqui tem sido assim nos últimos 10 dias, tal como ocorre há anos. Desta feita, a desculpa é a guerra no Oriente Médio, que passa distante da estrutura de custos da principal fornecedora nacional do insumo, a Petrobras.

O que dizem os números oficiais

E contra fatos não há argumentos. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) analisados pelo economista Eric Gil Dantas, do IBEPS em artigos publicados no site do Sindipetro e na AEPET, a realidade vendida pelos donos de combustíveis e seus sindicatos é bem outra.

O Brasil produz cerca de 90% de todo o petróleo que consome — mais precisamente, 89,3% . No refino, a estatal controla quase 98% da capacidade instalada. Ou seja, nove em cada dez litros queimados no país vêm de poços nacionais, que ficam a milhares de quilômetros do Estreito de Ormuz, centro estratégico do conflito no Oriente Médio.
Por outro lado, o Brasil, apesar de ser exportador de petróleo bruto, por razões técnicas e de mercado, o país ainda importa uma parcela da gasolina que consome. Dados da ANP mostram que, em 2023, essa fatia que era de cerca de 10% caiu em 2025 para patamares entre 4% e 5,5% do consumo nacional em razão ao aumento da produção interna e da queda nas cotações internacionais

De onde vem o petróleo importado e por que não passa por Ormuz

A própria Petrobras já se manifestou oficialmente sobre o tema. A empresa afirmou que "os fluxos de importação da Petrobras estão majoritariamente fora da região de crise e as poucas rotas existentes podem ser redirecionadas" . O diretor de Logística da estatal esclareceu que eventuais importações pontuais podem ser transportadas por rotas alternativas, como o Mar Vermelho ou portos do Mediterrâneo, sem impacto significativo de custo.

Portanto, mesmo que todo o lote importado ficasse mais caro — o que não aconteceu, pois as rotas do Brasil não foram afetadas — o impacto seria pontual e jamais justificaria uma alta generalizada antecipada de 15% a 20% em todos os postos de Alagoas simultaneamente. Para isso acontecer, precisa de conluio, de telefonema, de "combinado". Precisa de cartel.

A escalada da margem dos revendedores

Para entender a dimensão da ganância do setor, vale olhar para os números da ANP compilados por Dantas. Eles mostram que a margem de distribuição e revenda da gasolina no Brasil saltou de R$ 0,63 por litro em 2019 para R$ 1,16 por litro em 2025 . Mesmo descontando a inflação do período, isso representa um aumento real de 31% .
Considerando os 46,6 bilhões de litros de gasolina comum comercializados em 2025, esse aumento de margem custou R$ 13 bilhões extras aos consumidores brasileiros . É essa ganância praticada há anos sem qualquer punição à altura, que está por trás da farra dos preços do setor e da liberdade com que "pintam e bordam" com o bolso do consumidor.

A comparação internacional

Para dimensionar o absurdo dessa margem, vale olhar para mercados maduros como o dos Estados Unidos. De acordo com a NACS (National Association of Convenience Stores), a margem bruta de varejo de combustível nos postos americanos (antes das despesas) tem média de 38 centavos de dólar por galão nos últimos cinco anos . Um galão americano tem 3,785 litros.

Traduzindo esses números para a realidade brasileira, considerando a taxa de câmbio atual de R$ 5,37 por dólar (janeiro de 2026), a margem bruta americana de 31 centavos por galão equivale a aproximadamente R$ 0,44 por litro. Já a margem líquida (após despesas) fica em torno de 15 centavos por galão, ou seja, apenas R$ 0,21 por litro — e analistas do setor nos EUA apontam que as margens de combustível estão "sob pressão" .

Enquanto o revendedor brasileiro embolsa R$ 1,16 por litro, o americano opera com uma margem líquida (após despesas) de R$ 0,21 — ou seja, a margem do posto brasileiro é mais de cinco vezes superior à do americano. Isso expõe a voracidade dos cartelizados brasileiros: eles já embolsam margens que são múltiplas da média internacional e, mesmo assim, resolveram aumentar mais 15% a 20% nos últimos 10 dias. Não é repasse de custo. É pura e simples ganância e oportunismo injustificável.
A posição do governo federal

O ministério de Minas e Energia classificou os aumentos sem justificativa como "especulação criminosa" e acionou o Cade para investigar formação de cartel em estados onde o preço disparou sem motivo. Mais do que isso, foi publicada uma Medida Provisória criando multas específicas que podem chegar a até R$ 1 bilhão para quem aumentar sem justificativa, com valores variando de R$ 50 mil a R$ 500 milhões . O ministro da Casa Civil da Presidência foi taxativo: “os abusos se tornaram recorrentes. A redução de preços demora muito para chegar na bomba, quando chega, ou chega só parcialmente. A Petrobras não subiu preço e já tem aumentos nos postos".

A omissão local

Questionado, o Sindicombustíveis-AL declara que "não acompanha os preços dos postos associados", e o Procon Alagoas anuncia que "na segunda-feira vai definir ações para fiscalizar". Enquanto um finge que não é com ele, e o outro define ações, o consumidor já paga preços abusivos e os postos se preparam para novos aumentos, que podem ultrapassar os R$ 7 — a menos que a Polícia Federal, o Procon, a vigilância sanitária, a fiscalização do ministério do trabalho e os demais órgãos de fiscalização vão para cima deles. Enquanto isso, o golpe se consuma.

Conclusão

A Petrobras não aumentou o preço da gasolina — pelo contrário, acumula reduções desde 2023.
O petróleo nacional (90% do consumo) não ficou mais caro.
O petróleo importado (10% do consumo) vem de países que não dependem do Estreito de Ormuz e os fornecedores do Golfo (Omã e Arábia Saudita) têm rotas alternativas asseguradas por oleodutos .

A margem do revendedor que já era gorda e ficou obesa: saltou de R$ 0,63 para R$ 1,16 por litro entre 2019 e 2025, um aumento real de 31% que custou R$ 13 bilhões aos brasileiros só no ano passado — uma margem mais de cinco vezes superior à líquida dos postos americanos .
O governo federal já classificou esse movimento altista forjado como crime e criou multa de bilhão.
A guerra é no Oriente Médio. O golpe é aqui. E a "reunião de segunda" do Procon é a clara mostra da (in)eficiência dos nossos órgãos de defesa do consumidor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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