A população vai dar o troco. Simples assim
Em matéria no UOL da última quinta-feira (16.04), o jornalista Renato Meirelles abre o texto com um depoimento relevante para o momento atual: “Seu Valdir tem uma loja de material de construção em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Perguntado sobre o que esperava das eleições de 2026, a resposta foi: ‘Estou calculando quantos sacos de cimento a mais eu vendo se o movimento da Copa esquentar o comércio aqui’”. Ele até pensa na eleição, mas ainda não apareceu um candidato que fale a língua do boleto dele. Valdir é um entre 96 milhões que pensam e sentem exatamente assim.
A pesquisa Genial/Quaest (abril/26) revelou que 62% dos eleitores brasileiros não têm sequer ideia de em quem votar para presidente. Ou seja: são 96 milhões de pessoas que não verbalizam espontaneamente o nome de um candidato. São órfãos de bons projetos e de candidaturas aceitáveis. Essa “mudez cívica” não é apatia; é pragmatismo e raiva contida.
O cidadão sufocado pela microeconomia do dia a dia não tem espaço, tempo ou vontade a perder com o que não lhe suscita esperança. Afinal, 83% não confiam em políticos, segundo a pesquisa IPEC/ICS de 2025. O cenário piora com a polarização entre dois grupos que tentam se revezar no poder a qualquer custo e que, para isso, abriram mão do controle da corrupção e de um projeto real para o Brasil.
Para esse contingente de 96 milhões a política deixou de ser uma ferramenta de boas perspectivas e sonhos para se tornar um alto custo fixo, que não resolve os gargalos do balcão nem o aperto do bolso. O que as pesquisas revelam é um imenso vácuo de representatividade real. Enquanto as cúpulas partidárias se engalfinham para decidir entre si — sem ouvir sequer os aliados mais próximos das ruas —, a maioria silenciosa aguarda, cética, por uma agenda que volte a conectar o país ao crescimento macroeconômico e à melhoria imediata do poder de compra.
Essa orfandade política é estatística: descontados os núcleos duros da extrema-direita (17%) e da extrema-esquerda (7%), os que provocam todo esse ruído, sobram 75% de brasileiros que não pertencem a nenhuma bolha ideológica.
O fato de 43% desses eleitores (67 milhões) admitirem que podem mudar de opinião reforça ainda mais o dado da Genial/Quaest sobre a fluidez do voto no momento. É certo que esse exército de invisíveis detém a chave das urnas e 81% deles exigem mudanças profundas, segundo a Pesquisa AtlasIntel (03/26).
A eleição que se avizinha será um acerto de contas de quem se sente traído. O voto não será de quem gritar mais alto, mas de quem conseguir decifrar a economia do cotidiano. Leva quem demonstrar, por “A mais B”, como combaterá a corrupção que assola os poderes públicos, a insegurança generalizada que amedronta o país e como seu projeto tirará o Brasil do atoleiro do subdesenvolvimento e da armadilha da renda média.
Quem captar essa raiva contida e falar a língua do boleto, ganha.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



