colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

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O golpe de 1964: 62 anos depois…

04/04/2026 - 06:00
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O movimento de 31 de março de 1964 não pode ser compreendido como um simples evento militar ou uma ruptura abrupta da ordem democrática, como tende a narrar a historiografia predominante. Tratou-se, em sua essência, do desfecho trágico de um processo de radicalização política que, nos primeiros anos da década de 1960, colocou em lados opostos setores organizados da esquerda e uma ampla frente conservadora que via no governo de João Goulart o risco iminente de uma implantação do comunismo no Brasil.

João Goulart, herdeiro do trabalhismo getulista, assumiu em 1961 sob desconfiança crônica dos setores militares e conservadores. Ao recuperar os poderes presidencialistas em 1963, mergulhou em uma agenda de “Reformas de Base” – agrária, educacional, fiscal – conduzida sob forte pressão de movimentos sociais alinhados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e às Ligas Camponesas, frequentemente à margem do Congresso Nacional.

A polarização atingiu seu ápice em 13 de março de 1964, quando o presidente realizou um comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Diante de uma multidão, Goulart assinou decretos de desapropriação de refinarias de petróleo e de terras, ignorando o debate parlamentar e sinalizando uma disposição de governar por atos unilaterais apoiados na mobilização popular. Para setores expressivos das Forças Armadas, da classe média e da Igreja Católica, tratava-se do prenúncio de um autogolpe.

O estopim definitivo ocorreu quando uma assembleia de marinheiros em greve se recusou a obedecer a ordens superiores, e o presidente anulou as punições disciplinares aplicadas pela Marinha. O episódio consolidou, no meio castrense, a convicção de que Goulart estimulava a quebra da ordem institucional.

Diante desse quadro, a sociedade civil organizou uma resposta vigorosa. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada em São Paulo em 19 de março e replicada em outras capitais, reuniu centenas de milhares de pessoas em um dos maiores atos cívicos da história, demonstrando que a resistência à radicalização esquerdista não se restringia aos quartéis.

O movimento militar teve início na madrugada de 31 de março, quando o general Olímpio Mourão Filho ordenou que suas tropas marchassem do Rio de Janeiro. Rapidamente, forças de São Paulo aderiram e o apoio militar a Goulart se desintegrou. Sem forças leais para resistir, o presidente exilou-se no Uruguai. Em 2 de abril, o Congresso declarou vaga a Presidência.

A deposição instaurou um regime de exceção que duraria 21 anos, com graves violações de direitos humanos reconhecidas posteriormente pela Comissão Nacional da Verdade. Esses crimes não podem ser minimizados, assim como não podem ser ignorados os abusos praticados por organizações de esquerda antes e depois de 1964 – entre eles, ações armadas, sequestros e atentados durante a luta armada contra a ditadura.

Passadas seis décadas, o debate sobre 1964 permanece extraordinariamente controverso. De um lado, a narrativa acadêmica dominante reduz o episódio a um golpe sem contexto, negligenciando as tensões reais que levaram à ruptura. De outro, defensores do antigo regime insistem em uma visão heroicizada do movimento militar, desconsiderando os abusos que marcaram os anos seguintes. Ambas as posições alimentam uma polarização estéril que impede o amadurecimento do debate histórico.

O que se observa, 62 anos depois, é que essa dicotomia – golpe versus revolução – tem servido menos ao esclarecimento histórico do que à perpetuação de um confronto ideológico que fragmenta a sociedade e dificulta a construção de consensos mínimos. Enquanto a história do período continuar sendo utilizada como instrumento de legitimação política no presente, o país permanecerá refém de uma divisão que não lhe permite avançar.

Superar esse impasse exige um esforço de maturidade cívica. Trata-se de reconhecer, simultaneamente, que a quebra da ordem democrática em 1964 foi precedida por uma tentativa de ruptura revolucionária vinda da esquerda que a sociedade da época se recusou a aceitar, e que o regime instalado em seguida cometeu crimes inaceitáveis contra os direitos humanos, assim como grupos de esquerda também praticaram atos de violência em sua luta contra a ditadura.

O Brasil precisa encontrar um ponto de equilíbrio que lhe permita construir sobre bases mais sólidas e centradas – algo que nem os governos militares, nem as correntes que se autodenominam de esquerda democrática lograram alcançar.

Seis décadas depois, a lição que permanece é a de que, sem reconciliação com a própria história e sem disposição para olhar o passado com isenção, o país continuará condenado a repetir seus erros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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