colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O superendividamento predatório das famílias no Norte e Nordeste

06/06/2026 - 06:00
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A asfixia financeira que atinge as famílias do Norte e do Nordeste não é um mero acidente de percurso ou reflexo exclusivo da baixa renda regional. O buraco é muito mais embaixo e revela uma engrenagem predatória articulada entre o sistema financeiro com a omissão deliberada do Estado federal. Sob o pretexto de incluir os mais pobres no mercado de consumo, o que vem se assistindo na prática é uma armadilha de crédito desenfreado, que mais que sufoca, arrebenta com a vida das famílias de menor renda, principalmente.

O cidadão dessas regiões, já penalizado por salários menores, vira alvo preferencial de financeiras e grandes bancos comerciais. Essas instituições operam com total liberdade para oferecer produtos que ultrapassam qualquer limite técnico de segurança econômica. A conivência governamental é explícita ao permitir em conluio inflar margens de empréstimos e autorizar modalidades de crédito consignado abusivas. Esse arranjo empurra o trabalhador para um cenário de insolvência permanente, onde a renda é retida na fonte antes mesmo de cobrir a mesa.

A conta matemática apresentada pelo mercado mascara uma cruel transferência de renda, que drena os escassos recursos da periferia para o topo do setor bancário. O endividamento nessas localidades não financia bens de capital ou patrimônio; ele serve apenas para a subsistência básica, como alimentação e remédios.

As regras de proteção ao consumidor e a lei do superendividamento são tratadas como letra morta diante do lobby agressivo das corporações do crédito. Ao permitir que o comprometimento orçamental atinja patamares de até oitenta por cento, o governo abdica de seu papel regulador e vira sócio da miséria. A falta de tetos rígidos para os juros e para o comprometimento da folha salarial transforma o direito ao crédito em uma sentença de escravidão financeira.

O discurso oficial de bancarização da população serve apenas para mascarar a captura de mercados vulneráveis que não possuem mecanismos de defesa. Essa pressão persistente destrói qualquer possibilidade de emancipação social e condena gerações inteiras a viverem sob o cutelo da cobrança e da inadimplência.

Portanto, o debate real não deve girar em torno de educação financeira individual, uma vez que o consumidor é a parte hipossuficiente e encurralada da relação. A resolução desse problema exige uma auditoria severa nas práticas de concessão, a punição do crédito irresponsável e a redução drástica das margens permitidas. É urgente que o poder público assuma a responsabilidade por essa crise estrutural, revertendo as regras frouxas que entregaram a população à sanha dos bancos. A dignidade dessas famílias depende do fim desse ciclo de agiotagem oficializada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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