Futebol. Política. Encanto. Desencanto
O encanto é a fina película que recobre a realidade, conferindo-lhe um brilho que, por vezes, a própria existência teima em não possuir. Seja no amor que idealiza o outro, no trabalho que promete um propósito maior, nas amizades que juramos ser eternas, ou na experiência estética diante de uma obra de arte, o encanto atua como um filtro, uma lente que eleva o comum ao patamar do sublime.
No futebol, ele é o combustível que transforma um simples jogo de bola em uma liturgia coletiva, um campo de possibilidades infinitas onde a técnica encontra o milagre. Contudo, essa película é frágil. O desencanto chega como um sussurro seco, uma fissura que rompe a ilusão e nos confronta com a crueza dos fatos. O que fazer, então? Pode-se seguir em frente, tentando remendar o que restou, ou reavaliar a trajetória, encarando a nudez da realidade.
É um processo doloroso, um misto de saudosismo pelo que foi construído em nossa mente e o realismo frio de saber que, no fim, o brilho não passava de um reflexo que nós mesmos, em nossa sede de significado, projetamos sobre o mundo.
A imagética — termo perfeitamente adequado para definir a construção mental das imagens e símbolos que nos cercam — é moldada, desde o berço, pela onipresença do futebol. Somos inundados, absorvidos por uma narrativa de paixão e partidarismo que nos convence, de maneira quase atávica, de que o triunfo é uma obrigação moral.
Crescemos sob o peso dessa irracionalidade: o "tem que ganhar" torna-se uma regra de ouro, ignorando que o esporte, tal qual a vida, é tecido por frustrações inevitáveis. Contudo, nossa memória é um mecanismo de defesa astuto. Assim como a vida nos ensina a sobreviver aos tropeços, rapidamente colocamos os dissabores, as derrotas amargas e os desapontamentos em um cantinho escuro do subconsciente, preferindo o brilho efêmero dos títulos e a catarse da comemoração, como se o esquecimento fosse o único caminho para manter viva a chama desse encanto que, no fundo, sabemos ser um tanto enganoso.
Porém, essa aura de inocência esvai-se diante da profissionalização desenfreada que transformou o jogo em um gigantesco complexo industrial. Nos bastidores, a corrupção não é apenas uma exceção, é parte estrutural da engrenagem, movendo o jogo sujo de dirigentes que operam nas sombras e jogadores que, muitas vezes, tratam o amor da torcida como uma variável de mercado.
O esporte, que ganhou dimensões globais e um poder financeiro colossal, vive uma dissonância cognitiva: de um lado, a irracionalidade emocional da torcida, que ainda crê na mística da camisa; do outro, a frieza profissional que vê o torcedor apenas como um consumidor. O que não cabe nessa lógica é a ética, a transparência e, sobretudo, a memória do que o esporte foi antes de ser sequestrado pelos interesses que visam exclusivamente o lucro, ignorando que a essência do futebol deveria ser, antes de qualquer cifrão, o jogo.
A cada quatro anos, o Brasil — escrito assim, com minúscula, pois é difícil elevar ao patamar de nação um sentimento que é constantemente aviltado — para sob a égide da Copa do Mundo. É o "brasil de chuteiras", onde se escala a devoção de um povo para associá-la a arenas que mimetizam os antigos anfiteatros romanos. Como gregos e romanos que buscavam nas lutas de gladiadores e feras o distanciamento das tragédias políticas, entregamos nossa atenção ao "pão e circo".
O poeta Juvenal, em sua crítica feroz, já advertia sobre a mediocridade de um povo que troca o debate sobre o seu futuro pelo delírio das arenas. Ao ver a nação suspensa por noventa minutos, não consigo deixar de notar o paralelo perigoso: transferimos nossa capacidade de indignação para um campo de grama, enquanto, fora dele, o cupim da corrupção corrói os alicerces do país em todos os seus escalões.
A Copa do Mundo tornou-se, assim, um espelho distorcido da política brasileira. Se o futebol profissional se desvirtuou de sua essência ancestral para se tornar um espetáculo corporativo, a política nacional é o seu "repeteco" mais sombrio. Nas campanhas, o dinheiro inunda os cofres e a compra de votos é a regra, enquanto o debate de ideias é substituído pela arena da arenga, da maledicência e da fofoca pessoal, como se o destino de milhões dependesse de disputas menores e rasteiras.
O povo, muitas vezes alijado da compreensão real do que está em jogo, entra de sola, como em um carrinho desleal, nesse arremedo de democracia. Elegemos representantes com votações pífias, legitimando um sistema que custa bilhões, mas que pouco entrega àqueles que, esperançosos ou apáticos, ainda acreditam que o jogo político não é, também ele, apenas mais uma partida comprada.
Ao compararmos as mazelas da política aos subterrâneos do futebol, percebemos que a realidade que nos vendem na mídia é apenas a vitrine polida de um cenário muito mais decadente. Tanto em um quanto em outro, o que sustenta a estrutura é a manutenção do espetáculo, o desvio de recursos e a aposta na alienação. O desencanto, portanto, não é uma derrota, mas um despertar.
Quando o encanto quebra, somos obrigados a olhar para o que resta: não há mais a fantasia de um país ou de um time salvador, mas o trabalho exaustivo de reconhecer a sujeira dos bastidores. O final do jogo é nosso, não dos cartolas ou dos políticos. Diante do desencanto, o que resta é o esforço lúcido de parar de acreditar no circo e começar a exigir a realidade, ainda que, para isso, precisemos conviver com o vazio que a perda da ilusão deixa para trás.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



