A primeira vez
Texto de Ana Maria Cavalcanti – Pediatra Emérita do Hosp. Univ. da Ufal
Chovia. Entrei apressadamente no laboratório com um livro apertado contra o peito. Na contracapa, o cartão do plano de saúde, a requisição de exames. Havia também a bolsa e uma sombrinha, no atrapalho de sempre, cai mas não cai.
O moço junto ao totem de senhas para atendimento adiantou-se e explicou: “A senhora não faz mais exame aqui, é só atravessar a rua e lá do outro lado é o lugar da melhor idade”.
O outro lado era dedicado a idosos no térreo e crianças no primeiro andar.
Entre 60+, 80+ e casos urgentes, a primeira era a minha alternativa para obter a senha de prioridades. Fiz o reconhecimento da área para escolher um lugar para sentar, mas as pessoas presentes, aquelas não, não eram as minhas iguais. Tão idosas!
Aguardei lendo “A Queda do Céu”, palavras de um xamã yanomami, volumoso, pois aguardar atendimento em saúde leva tempo. “Os espíritos não são como os animais nem como os humanos. São outros... Os brancos não entendem que, ao arrancar os minérios da terra, eles espalham um veneno que invade o mundo e que, desse modo, acabará morrendo... e nem são alimentos...”
O tempo passou e chegou a minha vez. Em viva voz, veio o “a senhora escuta?”
– Sim!
Não entendi a pergunta seguinte porque o atendente usava máscara e falou mais baixo.
– Pode repetir?
Seguiu-se um olhar de quem já tinha recebido de outros clientes o pedido de uma mesma pergunta novamente. Em voz alta, vieram outras perguntas.
– A que horas se alimentou pela última vez? Tem certeza? Senão o exame dá errado. É diabética? Nem pré?!... Não toma metformina? Glibenclamida? Hipertensa? Usa losartana? E para dormir? Lembra de outros remédios? Vindo novamente, traga por escrito, para não esquecer nenhum.
Aquele não era o meu lugar. Nossa, que chateação!
Logo em seguida fui chamada para a coleta de sangue e saí apressadamente daquele lugar de tamanho estranhamento.
Cheguei em casa com a mente a repetir a primeira experiência num espaço dedicado a idosos. Só então percebi que havia deixado o livro de Kopenawa no guichê de atendimento. Liguei de imediato e, como pessoas que querem seus pertences de volta, fui insistente, minuciosa, repetitiva e quis a garantia de devolução. Alguma semelhança é mera coincidência...
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



