A Arte de Lucrar com Palavras
Roberto Sarmento Lima – Titular Emérito de Literatura Brasileira da Ufal e autor
Do livro O narrador Cínico, Edufal/Eduneal 2025.
Pelo título deste artigo pode-se pensar pelo menos em duas coisas: a literatura gosta de tematizar a importância do dinheiro na vida de personagens de romances, como ocorre em Senhora, de José de Alencar, ou em todo o Balzac, só para evocar exemplos notáveis. Mas também se pode pensar em outra: o complexo mercado literário, que cada vez mais — como se dá com qualquer mercadoria — envolve questões de distribuição, circulação e consumo. Livros surgem durante os lançamentos e descobrem autores e livreiros, sem deixar de lembrar os responsáveis pela organização de congressos, simpósios, feiras literárias, que pagam pelos estandes, pelas bebidas, canapés...
Da primeira alusão, segue uma passagem de O cortiço, de Aluísio Azevedo, em que o narrador toca na evolução econômica de João Romão, o português que explorava a todos no conjunto de casinhas de sua propriedade: “E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá se não admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. Os preços dos cômodos subiam, e muitos dos antigos hóspedes iam por economia”.
Como se vê, dinheiro aqui é tema. O vulgar e necessário dinheiro, sem o qual nada acontece de bom ou de ruim na vida do cidadão.
Do segundo exemplo, vou para Angústia, de Graciliano Ramos, que, subjetivando a atividade literária, tanto no âmbito da sua produção quanto no do seu consumo, torna a cena carregada de simbologia social: “Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição”.
Ou seja: a relação literatura-dinheiro ou se manifesta no tema de que se ocupa o autor, ou vira um motivo para metaforizar um sentimento, um modo de comportamento da sociedade. No fim, em ambos os casos, o dinheiro é demonizado, nunca um bom companheiro, exceto para aquele que o usa para submeter outro.
Mas, de outro jeito, quero destacar um sentido intermediário desse conúbio entre literatura e dinheiro. Não se trata mais de tema. Nem o dinheiro é travestido de estado moral ou psíquico. É, agora, estímulo mesmo da escrita, investido no discurso. Retiro de Os Lusíadas, de Luís de Camões, uns versos que podem ilustrar isso que eu digo. Na décima estrofe do Primeiro Canto, lemos o seguinte: “Vereis amor da pátria, não movido / De prêmio vil, mas alto e quase eterno; / Que não é prêmio vil ser conhecido / Por um pregão do ninho meu paterno”. Tentando bajular o rei d. Sebastião, que lhe poderia garantir a publicação da epopeia, Camões informa que o que escreve para celebrar a ação colonizadora portuguesa não é por dinheiro, o chamado “prêmio vil”, mas por um valor mais alto: eternizar o amor da pátria no poema. Por uma figura chamada preterição, em que se nega para afirmar, ele mirou, sim, na verdade, foi a pensão vitalícia paga pelo reino em troca do seu trabalho literário. O dinheiro energiza a escrita; transforma-se na própria necessidade — digamos, espiritual — de escrever. E veio com essa de que quis dar a conhecer ao mundo a divulgação do ilustre “ninho meu paterno”. Alguém aqui crê nisso?
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



