Machosfera: a misoginia como ferramenta política na era digital
Rozangela Wyszomirska – médica e Titular de Gastroenterologia da Fac. de Medicina de Alagoas/Ufal
A crescente presença de frases provocativas nas redes sociais, como comentários machistas e piadas sobre o corpo feminino, suscita uma reflexão profunda: esses discursos são apenas bravatas sobre “o lugar do homem” ou representam uma tentativa de recuperar relações de poder? A história sugere cautela. Durante séculos, mulheres, especialmente as de classes burguesas, foram educadas para o casamento e a maternidade, dependendo de homens para tomar decisões sobre suas vidas.
As mulheres pobres e negras, por sua vez, enfrentaram condições ainda mais severas, trabalhando em regime de semiescravidão nas lavouras e fábricas, ou como empregadas domésticas, sem direitos básicos. O século XX trouxe algumas conquistas significativas: a luta por autonomia, acesso à educação e igualdade jurídica. Simone de Beauvoir, ao afirmar que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, ressaltou que a identidade feminina é uma construção social, não um destino biológico.
Apesar dos avanços, desigualdades persistem. Mulheres ainda recebem salários inferiores, enfrentam violência e ocupam menos cargos de liderança. Em várias partes do mundo, meninas são privadas de educação ou forçadas a casamentos precoces. Esse cenário contrasta com o crescimento da "machosfera", uma rede de influenciadores que espalham discursos misóginos e hostis ao feminismo, promovendo papéis de gênero tradicionais.
Essa machosfera se alinha a movimentos da extrema direita, resgatando slogans que reforçam visões conservadoras sobre o papel da mulher na sociedade. Em um mundo conectado, algoritmos amplificam esses discursos, que se tornam viralizados sem necessidade de argumentos sólidos. O ressentimento individual se transforma em uma identidade coletiva, solidificando comunidades que rejeitam informações que contradizem suas crenças.
Pesquisadores, como os do NetLab da UFRJ, mostram uma conexão entre a machosfera e movimentos políticos nacionalistas e conservadores no Brasil e em outros países. Isso não significa que todos os conservadores compartilhem dessas ideias, mas indica que a misoginia pode ser uma estratégia de mobilização política.
O voto emerge como uma ferramenta poderosa nesse contexto. Através dele, podemos promover princípios democráticos, como igualdade de direitos e respeito à dignidade humana. É crucial que eleitores reflitam criticamente sobre candidatos e influenciadores que minimizam a desigualdade de gênero e perpetuam discursos de ódio.
A principal lição que se destaca é que os direitos conquistados podem retroceder se não reconhecermos as intenções por trás de discursos que buscam normalizar a desigualdade. A luta pela igualdade deve continuar, desafiando a machosfera e seus impactos, para garantir um ambiente onde os direitos das mulheres sejam respeitados e valorizados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



