Borocoxô
Ana Maria Cavalcanti – Pediatra e Mestra em Saúde da Criança pela Ufal
O vídeo recebido tratava de uma mesa redonda do projeto “Quinta é Cultura” da Academia Brasileira de Letras. Rosiska Darcy de Oliveira e Margareth Maria Pretti Dalcolmo traziam a temática do envelhecer para além dos muros acadêmicos.
Enquanto Rosiska, espontânea e poética, muniu-se de Simone de Beauvoir para mobilizar o pensamento quanto a necessidade de reação dos idosos na condução de suas próprias vontades, Margareth repetiu a dialética como no tempo da covid-19, coaptando a atenção nos espaços da mídia, com muita sabedoria.
Rosiska e Margareth não usaram maquiagem para constatar o tratamento amargo de refugo dos idosos e defenderam a necessidade urgente de uma reestruturação social das relações humanas. Ações transformadoras a partir de iniciativas do idoso. Para si e estendidas para outras pessoas em suas camadas de pobreza e marginalização.
Pois bem, envelhecer não é só um debate de palavras bonitas com plateia seleta. Entre dados estatísticos de saúde, filosóficos e a longevidade à nossa porta, a questão parece incomodar não só aos protagonistas da faixa, mas também aos familiares que ainda não chegaram lá, a gestores, economistas, religiosos e ateus, enfim, diz respeito a todos os participantes da jornada da vida. Incomoda à maneira do universo e momento de cada um, como uma campainha à nossa porta.
Irmãos, amigos, minha mãe a têm como uma senhora determinada a participar de todas as salas de visita, não há exceção. Outro dia, comentava que passei um bom tempo admirando um São Jeremias Escrevendo. Não a esqualidez do corpo envelhecido, mas a concentração, paciência e sabedoria, a firmeza ao segurar a pena, o propósito. Para ele, a tradução de um livro sagrado poderia mudar os rumos da História e fazer tal pintura atravessar o tempo. (Não serviu de consolo).
Quando Simone de Beauvoir escreveu A Velhice, analisou como a sociedade lida com os idosos sob a ótica seus 62 anos. Ela denunciou o silêncio sobre a falta de condições para essa fase da vida, quando são transformados em produto descartável. (O assunto é velho).
Veio à lembrança a Balada de Narayama. Em uma aldeia distante - comida escassa-, os idosos eram levados pelo filho até o alto da montanha para morrerem à própria sorte, alguns de forma resiliente, outros nem tão tranquilamente. A subida pelos caminhos estreitos e frios permanecem conosco para sempre.
Fernanda Montenegro tem trazido reflexões realistas e sem tabus sobre a velhice, rejeita termos como “melhor idade”, prefere encarar as perdas físicas e sensoriais e vive plenamente seu presente. É arrebatadora, em uma cena urbana, a solidão da personagem Dona Vitória em meio ao perigo cotidiano. Só Dona Vitória diria “o perigo vem da janela” com tanta propriedade.
Se não somos Fernandas Montenegros, Zezés Motas, Noams Chomsks para oferecer densidade à ideia de que podemos fazer a diferença após os 80, se não sou gênio de alguma arte para ocupar o tempo até a última permissão das faculdades físicas e mentais, prestar atenção ao que pode ser modificado ou, simplesmente, apreciar a beleza (onipresente como Deus) podem ser um passatempo. Porque de uma maneira ou outra, ele passa. Não levando ao declínio, isso é um mito, envelhecer faz-se processo natural da existência.
(Ah, gente, a verdade mesmo é que a partida de Glória Menezes e Laura Cardoso me deixou borocoxô...).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



