Me deixem ser velha
Rozangela Wiszormirska - médica e Titular do Módulo Digestório da Fac. de Medicina de AL/Ufal
O envelhecimento começa no nível biológico por volta dos 25 ou 30 anos, quando o corpo reduz progressivamente sua capacidade de regeneração celular. Nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. Essa é a lei da vida.
E por que a sociedade humana não gosta de envelhecer? Não gostam nem de falar a palavra “velho” e, quando falam, é quase sempre em sentido pejorativo. Por que os jovens, muitas vezes, repudiam os velhos, embora boa parte dependa financeiramente deles? Por que não os visitam, não fazem programas com eles? Por que não gostam do corpo velho? Por que tantos velhos são maltratados ou abandonados?
Da infância para a idade adulta, modificamos totalmente nosso corpo, nossa mente, nossa psiquê, nossas vontades. E, claro, naturalmente, mudamos ao envelhecer. Por que, então, não são aceitas as mudanças para a velhice? O corpo muda, os cabelos embranquecem, aparecem rugas, celulite, flacidez. Ficamos mais lentos no pensar e no agir, reduzimos o afã pelo “ter” e pelo “ser” e, assim, somos interpretados pela sociedade capitalista ocidental como inúteis. Por que precisamos mergulhar em procedimentos estéticos, exercícios vigorosos e toda uma indústria destinada a apagar as marcas do tempo? Por que vestir-se como os jovens e tentar aparentar uma vitalidade que já não é a mesma?
Simone de Beauvoir criticou duramente uma sociedade que marginaliza o idoso por se tornar “menos produtivo”, transformando-o em um “objeto inútil”. Marilena Chauí também mostra como, em uma sociedade orientada pelo consumo e pela novidade, aquilo que não produz lucro e a experiência dos mais velhos tendem a ser desvalorizados.
A bem da verdade, a memória do velho não é um depósito de coisas passadas e ultrapassadas; é um reaver tempos passados, como o pensamento funcionava em cada época. E isso deveria enriquecer a sociedade. Mas como isso aconteceria em uma sociedade em que os jovens falam por siglas, abreviaturas e adjetivos que muitas vezes substituem uma frase inteira? Cícero, em Cato Maior de Senectute, defendia que a velhice não elimina os prazeres, mas os transforma. Platão associava o envelhecimento à serenidade e à sabedoria; Sêneca lembrava que a vida não é curta, mas frequentemente desperdiçada com futilidades.
Pactuo com Beauvoir e Chauí: não é a biologia que transforma a velhice em problema, mas uma sociedade que atribui valor às pessoas segundo sua produtividade. A mídia valoriza o mundo do mercado: influencers surgem a cada momento, produtos são lançados prometendo a estética perfeita, e nessa perfeição devemos estar sorridentes, com dentes perfeitamente restaurados e brancos, como celebridades e famosos. É cansativo ao extremo.
Acabei de completar 70 anos e quero continuar minha trajetória, sem medo. Os jovens podem não me ouvir. Não importa. Fica o testemunho e as ideias.
Quero autonomia. Quero ir e vir sem depender de terceiros enquanto puder cuidar de mim. Quero reviver nos netos a alegria e o amor dos filhos, e emoções não vividas ainda.
Aceito o declínio da saúde, as marcas da minha história na pele, a celulite e os cabelos brancos. Não quero abdômen “tanquinho”. Não quero cosméticos e cirurgias para corrigir aquilo que o tempo naturalmente produziu. Quero olhar no espelho e reconhecer a minha história.
Não tenho medo da morte. Entendo-a como parte do ciclo da vida. Não quero prolongar artificialmente uma existência sem possibilidade de consciência e autonomia.
A aposentadoria não é perda de utilidade.
A solidão e o isolamento estão presentes na vida do velho, mas podemos aprender a gostar de conviver conosco. E, quando possível, quero a companhia das pessoas que amo: filhos, netos, família e amigos.
Não quero resignação. Quero lucidez. Quero viver a velhice como mais uma etapa da vida, com seus momentos bons e ruins, como todas as outras. Sem máscaras, sem subterfúgios e sem a obrigação de parecer jovem.
Me deixem ser velha.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



