História com caçadores, sobreviventes das Alagoas
Do que se fez o sobrevivente alagoano? Ele reuniu em si elementos culturais e proteicos que o salvaram de maiores tragédias, já que a raiz de sua história dela não poderia fugir. O contato com as matas não foi encharcado de venturas na imagética dos coletores comuns, que tudo repartiam entre si. A mata fechada era morada de bicho, era nicho de carne farta e sangue quente, onde a vida deveria nutrir a vida sem perder tempo com éticas reflexivas.
Os caçadores não foram homens maus e sangrentos, foram homens sobrevivendo! Daí a um esguicho cultural e virou “hobby” para alguns, contudo, ainda nas décadas de 70/80 pude ver a carne de tatu e paca matar fome de família inteira, quando o trabalho no “eito” da cana não rendia o suficiente para comprar “carne verde” no domingo.
Em minha família de herdeiros da sobrevivência, alguns alimentaram a prática, porque de uma ação marcante nenhum povo se liberta repentinamente. Meu pai José Bento, nascido em União dos Palmares, carregava consigo histórias de caça. Unindo-se a meu avô materno, Antônio Laurindo, caminheiro dos rincões entre Porto de Pedras e Matriz de Camaragibe equilibrando comércio e política, conseguiu formar um núcleo de caçadores do qual participavam o cabeleireiro masculino e também barbeiro Antônio Lopes e Gerson Medeiros, comerciante.
De Gerson as memórias são menores, pois foi vítima de uma bala da própria espingarda enquanto caçava e faleceu na meia idade. Mas antes de morrer reiterava histórias de fantasmas, como a da voz que direcionava meu pai para longe dos companheiros na mata do Eixo, até que um arrepio súbito o fez perceber a cilada e retomar o caminho de volta.
Quando a caçada era boa uma parte dos bichos era tratada na minha casa, no terraço encimentado, muitas vezes o ritual acontecia de madrugada, tendo eu e minha irmã como testemunhas do zelo e honestidade do pai caçador que repartia igualmente os pedaços de tatu, paca, veado, porco do mato e até mesmo capivara. Mas uma vez ele matou um gato do mato. A pelagem manchada de pingos pretos o encantou! Resolveu salvar aquela beleza, em um arranjo de curtição, espichando o couro por meses no quintal.
Aos poucos o cheiro ruim se foi e o trabalho único do artista súbito começou a ganhar formas. Costurou com linha de nylon. Preencheu com espuma. O arame posto nas patas e cauda deixavam o gato em pé, com seus olhos verdes feitos de fundo de garrafa de vidro, brilhando como se vivesse.
Esse charme despertou a cobiça de uns caçadores de Recife que se juntavam ao grupo para caçar porcos. O vale de lágrimas que eu criei não foi suficiente para fazer meu pai desistir de atender ao pedido do pernambucano. Sofri a saudade do gato por muito tempo, mas o senhor de tudo é também ele, o tempo que tudo leva. Assim foram sendo levados os cachorros perdigueiros do meu avô, que custavam uma nota e comiam bacias de alimentos, dos quais lembro apenas do Boc e do Blac. Depois os caçadores também migraram, foram desbravar as matas do além, meu avô primeiro.
Nestas letras não entram julgamentos. Os caçadores que conheci foram todos sobreviventes.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



