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Odilon Rios

Jornalista, editor do portal Repórter Nordeste e escritor. Autor de 4 livros, mais recente é Bode Pendurado no Sino & Outras Crônicas (2023)

Conteúdo Opinativo

Em Passo, as ruínas do gigante

08/07/2023 - 06:00
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Divulgação
Casa da família de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira
Casa da família de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira

A cidade onde nasceu o homem associado à cultura e ao saber no Brasil trata os vestígios do seu filho mais ilustre entre lixo e abandono. A casa da família de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, próxima ao Rio Camaragibe, está descaracterizada, fechada há anos e, em algumas partes, mostra ruínas. A placa que aponta para a "Casa Mestre Aurélio", escrita em inglês e espanhol, é apenas figurativa e virou ponto para descarte de lixo.

Falar de Aurélio é lembrar do dicionário mais famoso do país, durante anos livro obrigatório nos materiais escolares. Tinha 23 anos quando se mudou de Passo de Camaragibe para Maceió, dando aulas de português. Fez magistério e, chegando ao Rio de Janeiro, em 1938, tornou-se contista, ensaísta, crítico literário, filólogo e tradutor, antes de se dedicar ao seu estudo mais complexo sobre a língua portuguesa: o 'Dicionário Aurélio'.

Antes de embarcar para o Rio, na década de 30, dividia as mesas dos cafés de Maceió com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Gilberto Freyre. A 'Roda de Maceió' reunia os escritores mais influentes, naquele momento, do movimento regionalista. Em 2012, escrevi para O Globo que Passo não tinha sequer uma referência a Aurélio nem as pessoas conheciam o escritor. Onze anos depois, há placas, nome de prédio público, um gigante dicionário e a imagem de Aurélio na entrada da cidade. Ele estudou e ensinou na escola estadual Ambrósio Lira, reformada pelo governo.

"Na cidade onde nasceu o homem que tem seu nome associado à língua e ao saber, 2.730 dos 13.826 habitantes não sabem ler nem escrever, segundo o IBGE. A maioria (9.029 pessoas) frequentou a escola por sete anos, ou seja, nem chegou ao ensino médio. Apenas quatro têm curso superior. Mais da metade da população vive com até um salário mínimo por mês". Uma década depois, a população cresceu, segundo o mais recente levantamento do IBGE: 13.804 pessoas. Os problemas com a educação são os mesmos: 20% da população não sabe ler nem escrever, chance mais garantida de emprego e pagando regularmente só no poder público, ocupando cargo comissionado ou nos raros concursos.

Como nos tempos mais remotos, a cana-de-açúcar movimenta a economia, mas o turismo, aos poucos, vai ocupando seu espaço. Próximo à casa de Aurélio está a ponte Fernandes Lima, ligando Passo a São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras. A mão de obra é pouco qualificada, recebe um agrado e vive submetida a acordos coletivos impregnados pelo escravagismo. Aurélio picou a mula de Passo para o mundo. E Passo afunda na lama do Camaragibe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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