Jornalista, escritor, colunista do Jornal Extra, da Gazeta de Alagoas e da Tribuna do Sertão, além de presidente do Instituto Cidadão.

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O Carnaval de Maceió é Massa

13/02/2026 - 10:26
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Os grandes carnavais do Brasil se concentram no eixo da consagração nacional: Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. É lá que milhões se acotovelam para assistir ao maior espetáculo da Terra, o desfile das escolas de samba, os trios elétricos monumentais, os camarotes estrelados. Tudo grandioso, televisionado, exportado para o mundo.

Mas quem disse que não temos o nosso Carnaval?

Aqui, em Maceió, a festa tem outro tempero. É o Carnaval do saudosismo, da lágrima que escorre no canto do olho quando a orquestra puxa uma marchinha antiga. É o Carnaval que mistura passado e presente, que abraça gerações e faz a gente cantar como se o tempo não tivesse passado.

Orgulhosamente, temos o Pinto da Madrugada a maior prévia carnavalesca do país. Um fenômeno popular que arrasta uma multidão pela orla da Pajuçara e da Ponta Verde, transformando a Avenida Beira-Mar em um rio humano de alegria. São dezenas de orquestras, milhares de fantasias, uma explosão de cores e frevos que beiram um milhão de foliões. Rico, pobre, conservador, progressista, anônimo ou famoso,todos se misturam numa celebração democrática que só o Carnaval é capaz de proporcionar.

É uma mistura linda de raças, cores, gêneros e histórias. Turistas chegam de todos os cantos e muitos já vão embora com a data marcada para voltar no próximo ano. O Pinto não é apenas um bloco: é um patrimônio afetivo da cidade. É memória coletiva desfilando ao som dos metais e clarins.

Vi críticas amargas ao apoio financeiro da prefeitura. Convenhamos: foi pouco, muito pouco, se comparado aos cachês milionários pagos a “celebridades sertanejas” que, em duas horas de palco, levam cifras astronômicas. Colocar o Pinto da Madrugada na rua custa caro, milhões que esses jovens organizadores, verdadeiros guerreiros da cultura, conseguem arrecadar com esforço hercúleo, meses de trabalho, planejamento e amor à cidade. Não é improviso; é dedicação.

O dia do Pinto é o mais aguardado do ano para muitos maceioenses. Eu mesmo já acompanhei o bloco por toda a avenida; hoje as pernas não deixam, mas os olhos e o coração continuam lá. E me emocionei ao ver pessoas chorando enquanto cantavam velhas marchinhas. Ali não havia apenas folia; havia memória, identidade e pertencimento.

E o Carnaval de Maceió não para por aí. No tríduo momesco, os blocos de rua tomam conta da cidade, revivendo tradições e encantando visitantes. Entre eles, o tradicional Bloco Nêga Fulô, comandado pelo ícone da cultura alagoana Carlito Lima talvez o maior carnavalesco da história de Alagoas, homem movido a criatividade, irreverência e amor por Maceió. A festa começa cedo, por volta das 14 horas, e ainda dá tempo de vestir a fantasia e cair na rua.

Se você veio para descansar, achando que aqui encontraria silêncio, permita-se ao menos um mergulho nessa alegria diferente. É um Carnaval sem ostentação exagerada, mas cheio de alma. Um Carnaval que não se mede apenas em cifras, mas em emoção.

Que venha o próximo Pinto da Madrugada com mais apoio oficial, mais reconhecimento, mais investimento naquilo que é genuinamente nosso. Governo e prefeitura precisam entender que cultura popular não é gasto: é identidade, é turismo, é economia criativa, é autoestima coletiva.

O Carnaval de Maceió é massa.

É frevo na veia, é marchinha na memória, é abraço na avenida.

É o passado desfilando no presente e prometendo voltar ainda mais forte no próximo ano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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