Jornalista, escritor, colunista do Jornal Extra, da Gazeta de Alagoas e da Tribuna do Sertão, além de presidente do Instituto Cidadão.

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Carta a Jesus no Dia da Ressurreição

05/04/2026 - 14:40
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Entre a cruz do mundo e a esperança que insiste em renascer

Passados os dias de dor e silêncio, quando o céu parecia pesar sobre os ombros da humanidade e a cruz erguia-se como símbolo máximo da injustiça, volto-me a Ti, Senhor, no esplendor da Ressurreição. Não mais como quem lamenta, mas como quem busca compreender. Não mais apenas como quem sofre, mas como quem insiste em acreditar.

A liturgia se cumpre, os ritos se renovam, as igrejas se enchem de cânticos e incensos. A pedra foi removida. O túmulo está vazio. A morte não venceu. E, ainda assim, Senhor, o mundo parece não ter compreendido plenamente o significado desse milagre.

Celebramos a vida que venceu a morte, mas seguimos convivendo com a morte que insiste em vencer a vida.
Hoje, quando um novo ciclo se anuncia no coração da Igreja, quando o tempo litúrgico nos convida à renovação da fé e à escuta atenta da Tua Palavra, sobretudo à luz do Evangelho de Mateus, tão rico em ensinamentos e tão profundo em sua catequese, somos chamados não apenas a ouvir, mas a viver. E é exatamente aí, Senhor, que nossa humanidade parece falhar.

Porque enquanto celebramos a tua Ressurreição, guerras continuam a ceifar vidas inocentes. Jovens são arrancados de seus sonhos, crianças são privadas de seu futuro, e o mundo assiste, muitas vezes em silêncio, à repetição de tragédias que já deveriam ter sido sepultadas pela história. A cruz, que deveria ser sinal de redenção, ainda é erguida sobre campos de batalha, sobre cidades destruídas, sobre corpos esquecidos.

No Brasil esta terra de fé e contradições mulheres seguem sendo assassinadas dentro de seus próprios lares. O feminicídio não é apenas um número que assusta; é uma ferida aberta na alma de um país que ainda não aprendeu a proteger suas filhas. Senhor, quantas Marias ainda precisarão chorar seus filhos e suas próprias vidas interrompidas?

E há mais, muito mais.

O ódio se espalha como praga silenciosa. Pessoas se afastam, se atacam, se desumanizam por pensarem diferente, esquecendo-se de que, antes de qualquer ideologia, são todas filhas do mesmo Deus. O preconceito racial ainda marca corpos e destinos. A intolerância religiosa fere consciências. A homofobia e a transfobia ceifam vidas com brutalidade cruel, como se a diferença fosse crime e não expressão da diversidade da criação.

Senhor, como pode a humanidade, criada à Tua imagem e semelhança, tornar-se tão incapaz de reconhecer o outro como irmão?

Enquanto isso, os animais criaturas que também carregam o sopro da vida são abandonados, maltratados, mortos sem compaixão. A indiferença se tornou rotina. A dor alheia, invisível.

E no campo da política, onde deveria florescer o compromisso com o bem comum, cresce a corrupção que rouba não apenas recursos, mas dignidade. Crianças ficam sem merenda, hospitais sem insumos, escolas sem estrutura, enquanto alguns transformam a coisa pública em instrumento de enriquecimento pessoal. É uma traição silenciosa e devastadora ao futuro de toda uma nação.

As drogas, por sua vez, invadem lares, destroem famílias, apagam sonhos. Jovens que poderiam ser luz tornam-se sombras de si mesmos, perdidos em um labirinto de dor e abandono.

Diante de tudo isso, Senhor, a Ressurreição nos parece, por vezes, distante. Não porque ela não tenha acontecido, sabemos que aconteceu, mas porque ainda não conseguimos fazê-la acontecer dentro de nós.

Talvez seja esse o verdadeiro chamado deste novo tempo litúrgico: permitir que a Tua Ressurreição não seja apenas um evento celebrado, mas uma realidade vivida.

Que o Evangelho que ouvimos não seja apenas palavra proclamada, mas prática cotidiana. Que o Sermão da Montanha não seja apenas um ensinamento admirado, mas um caminho trilhado. Que o amor ao próximo não seja discurso, mas atitude.

Dai, Senhor, consciência humanitária aos governantes. Que compreendam que governar não é dominar, mas servir. Que abandonem a tentação do poder pelo poder e abracem a missão de cuidar. E àqueles que se aproveitam da política para enriquecer, concede antes do julgamento da história o despertar da consciência.

Ensina-nos a olhar o outro com misericórdia. A respeitar as diferenças. A proteger os mais frágeis. A defender a vida em todas as suas formas.

Que esta Ressurreição seja mais do que um símbolo: seja um recomeço.

Um recomeço para o mundo, para o Brasil, para cada coração endurecido.

Porque, no fim, Senhor, a tua vitória sobre a morte só fará sentido completo quando aprendermos, finalmente, a escolher a vida.

E que, ao sair das igrejas neste domingo de celebração, não deixemos para trás apenas velas acesas e cânticos entoados, mas levemos conosco a responsabilidade de sermos, nós mesmos, sinais vivos da Ressurreição.

Amém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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