colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

Tarifaço: bem Trump

03/04/2025 - 16:12
Atualização: 03/04/2025 - 16:52
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Só se pode tomar como bravata a iniciativa do Congresso brasileiro de aprovar a toque de caixa projeto de “Lei de reciprocidade” em resposta ao tarifaço imposto pelo governo Trump. Em primeiro lugar, por que para o Brasil a taxa de 10% foi razoavelmente “neutra”, ou seja, pouco vai afetar os exportadores nacionais. Em segundo lugar, por que não se conhece formiga que tenha se dado bem ao provocar um elefante...

É o caso. Em 2024, a nação americana representava nada menos que 27% do PIB mundial, o Brasil, 1,8%; as exportações americanas chegaram a 3,2 trilhões de dólares e a brasileira, a 332 bilhões de dólares; Nossa dependência tecnológica em relação à América, como os americanos gostam de chamar o seu país, é avassaladora. E essas são apenas três das inúmeras áreas em que somos total ou parcialmente dependentes, o que nos coloca na situação de “cordeiros indo para o abate”, se assim eles desejarem. O resto é lero.
Floreios para se minimizar a montanha de erros estratégicos deste país ao longo dos últimos dois séculos, que nos trouxe de uma situação de quase igualdade econômica aos EUA no início do século XIX, para a abissal distância de hoje entre os dois países.

Com a taxação de 10%, surge mais uma vez – e tomara que aproveitemos ao invés de ficarmos bravateando em torno do tema – duas ótimas chances: a primeira para o Brasil ampliar o seu comércio exterior para os países que certamente irão retaliar Trump substituindo em parte os produtos americanos (que o Brasil também vende). E a segunda, para nosso país abrir o mercado nacional à competição estrangeira (até por que, queira ou não seremos invadidos por produtos chineses, vietnamitas, malaios e europeus e de tantos outros países impedidos de entrar no mercado americano).

O chororô do empresariado nacional, os mesmos de sempre acostumados ao bem bom das barreiras tarifárias protegendo seus produtos obsoletos, super caros (em relação ao mundo) e não competitivos, vai ser grande. A “invasão estrangeira” que vai ocorrer (quer o Brasil abra as portas comerciais, o que seria uma boa ou não, tal a diferença de preços praticados por eles e por nossos compatriotas), irá reduzir preços e colocar á disposição dos brasileiros produtos de qualidade superior. É claro que alguns poucos, raros setores estratégicos devem ser protegidos, energia, petróleo, defesa e ficamos por aqui.

Agora, quando se trata do impacto do tarifaço no mundo, a repercussão e as consequências serão significativas. Os países asiáticos, China incluída e a Europa estão entre os mais penalizados. A possibilidade de crise sistêmica global é real, o aumento da inflação mundial, também, embora seja cedo para se fazer uma avaliação mais aprofundada das consequências para o mundo.

No entanto, uma coisa é certa: diferente das promessas de Trump, internamente o consumidor americano vai sofrer na pele os efeitos do tarifaço: Os preços dos produtos importados - que enfrentarão uma taxa média ponderada de 24%, de acordo com a Evercore isi, uma empresa de pesquisa – serão fatalmente majorados. E como eles são parte significativa do consumo americano, a inflação interna nos EUA aumentará afetando a toda a economia. O tarifaço tem tudo para ser um tiro no pé.

As medidas de Trump parecem a princípio, mais sombrias do que muitos dos piores cenários desenhados até então. Pior é que, ao que tudo indica, os dados fornecidos pelo presidente para o cálculo do déficit bilateral dos Estados Unidos como uma parcela das importações de cada país, sugerem que podem simplesmente ser um conta em “papel de enrolar prego”. Algo de uma irresponsabilidade gigantesca!

Resumo da ópera: Nos últimos 80 anos os EUA foram os grandes protagonistas e beneficiários da ordem econômica mundial construída sobre a sua batuta. Se Trump conseguir o que quer, a ordem, lenta e firmemente construída após a Segunda Guerra Mundial estará morta e enterrada. E no lugar poderá sobrar um vale tudo em que os mais poderosos certamente vencem os mais frágeis. Mas não fará a América grande de novo como ele sonha.

Bem Trump que por onde passa destrói ou quebra tudo e todos que com ele se envolvem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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