colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O Supremo Escárnio

18/01/2026 - 07:23
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Quando o Banco Central decreta uma liquidação extrajudicial, ele o faz sob o império da técnica, não da conveniência política. No entanto, o que assistimos no caso do Banco Master, sob o controle de Daniel Vorcaro, é uma anomalia sistêmica que ameaça implodir a credibilidade das nossas instituições. Historicamente, o Brasil enterrou gigantes bancários sem que os alicerces da República tremessem tanto. Houve resistências, pressões e ruídos em episódios passados, é verdade, mas o sistema sempre absorveu os choques. Nunca se viu nada nesse nível de pressão despropositada e virulenta contra o BC como agora no Caso Master.

A reação à decisão técnica do BC é inaudita e injustificável. O que se vê agora é uma desavergonhada campanha de descrédito orquestrada pelo Supremo (via dois ministros) e o Tribunal de Contas da União através de uma figura desqualificada até para a função legislativa, mas que foi abençoado com um cargo naquele “tribunal”, contra a autoridade monetária).

Essas instituições deveriam zelar pela ordem, não contribuir para sua degradação. Não é o que se observa nos últimos anos. O Supremo a cada dia se esmera em criar mais anomalias e excrescências jurídicas ao invés de exercitar seu papel de guardião da Constituição.

Nesse caso Master, a “dobradinha Supremo-TCU (uma sinecura criada como órgão auxiliar do Legislativo, que tem assumido por conta própria, o papel ilegítimo de um tribunal regular sem que ninguém lhe dê um basta, ganhou auxiliares de peso no Congresso Nacional que, na sombra dos esgotos daquela casa, agem diuturnamente para livrar a cara do banqueiro criminoso e as suas respectivas imagens.

A pergunta que ecoa na população brasileira é inevitável: o que há de tão grave por detrás disso para que figuras de proa do status quo do governo brasileiro arrisquem as suas imagens na defesa do indefensável?

A atuação dos dois órgãos e dos políticos envolvidos até o pescoço com o Master neste episódio ultrapassou em muito até a heterodoxa; é afrontosa mesmo. Para relembrar: o caso foi parar na Corte Suprema sem que haja investigados com foro por prerrogativa de função, o que desafia abertamente a Constituição e o princípio do juiz natural. Somam-se a isso o imoral sigilo absoluto imposto por Dias Toffoli e o vaivém de suas decisões dúbias sobre a custódia de provas e perícias, atividades que, em qualquer democracia funcional, cabem à autoridade policial e ao Ministério Público, e não ao gabinete de um ministro.

A gravidade atinge o ápice quando negócios privados e contratações milionárias de escritórios de advocacia de familiares de ministros — como o de Alexandre de Moraes e parentes de Dias Toffoli — emergem no cenário. Ainda que não se prove ilegalidade imediata, a promiscuidade ética é escárnio. Em um Estado de Direito, a aparência de imparcialidade é tão essencial quanto a própria imparcialidade. O afastamento desses magistrados dessa causa não é uma sugestão; é um imperativo moral. O Supremo precisa ser parado em sua marcha batida para o caos institucional.

A decisão de Moraes de instaurar inquérito de ofício para apurar vazamentos, sem provocação da Polícia Federal, transforma o julgador em inquisidor e fere de morte o sistema acusatório. O STF, em sua sanha investigativa e centralizadora, parece ter esquecido seu papel de guardião constitucional para atuar como escudo de interesses nebulosos. As excepcionalidades do caso Master não são apenas "heterodoxas" — são sintomas de uma metástase institucional.

O País exige saber: por que o STF decidiu sabotar a autonomia técnica do Banco Central para instaurar um balcão de negócios jurídicos? Que interesses inconfessáveis estão enterrados sob o sigilo de Toffoli para justificar essa mobilização de guerra contra uma liquidação bancária que deveria ser rotineira? Onde termina a guarda da Constituição e onde começa o serviço de blindagem operado por uma advocacia administrativa instalada dentro da Suprema Corte?

O Supremo Tribunal Federal deve respostas claríssimas e imediatas. O silêncio da Corte é o atestado de que o critério técnico morreu, assassinado pela conveniência dos amigos do poder. O que estamos presenciando é o sequestro da República por uma casta que atropela a lei para proteger os seus. Sem explicações, o STF deixa de ser um tribunal e passa a ser o garante de um sistema apodrecido, onde a toga serve de escudo para quem deveria estar sob o rigor da fiscalização.

Ainda não veio à público, mas a bandalha do Master – se o Supremo permitir – vai alcançar dezenas de cabeças coroadas deste regime.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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