O Teatro das Sombras: a Elite Blindada e a Tragédia Brasileira
A semana desenhou um painel fidedigno da nossa disfunção institucional, um combo de fatos históricos que simbolizam a tragédia brasileira. De um lado, o desfecho tardio do caso Marielle Franco e Anderson Gomes trouxe a condenação de Domingos e Chiquinho Brazão a 76 anos de prisão, e do ex-chefe de polícia, Rivaldo Barbosa, a 18 anos por acobertamento. Um alento que surge após oito anos de uma novela criminal e jurídica marcada por investigações manipuladas, provas destruídas e testemunhas plantadas. Esse enredo só se alterou com a mudança dos ventos políticos e a entrada da Polícia Federal na apuração, culminando na delação do assassino confesso.
Contudo, a celebração desse avanço institucional é precocemente sufocada pela realidade. Enquanto o Judiciário encenava o acerto de contas, o Legislativo operava sua própria mágica de autoproteção. O Projeto de Lei Antifacção, votado sob o pretexto de endurecer o combate ao crime, revelou-se um torniquete seletivo. Num acordo espúrio entre governo e oposição, as punições severas foram reservadas apenas aos soldados das facções classificadas como “ultraviolentas”. Quando o texto ousou tocar no crime de colarinho branco, na lavagem de dinheiro e na promiscuidade de escritórios de advocacia e consultoria jurídica que hipotecam seus CNPJs a atividades ilícitas, os parlamentares recuaram em uníssono.
O que assistimos é um sistema que sacrifica seus peões para preservar os reis. Ao descartar a taxação das bets para financiar a segurança e ignorar o aumento de penas para organizações criminosas em geral, o Congresso garante que banqueiros, advogados e juízes envolvidos em tramas escusas durmam tranquilos. A manutenção dessa estrutura de privilégios e impunidade serve a um propósito claro: garantir que os verdadeiros donos do poder permaneçam intocáveis, mesmo quando suas digitais aparecem em crimes de sangue ou esquemas de corrupção sistêmica.
Essa blindagem sistêmica atinge seu ápice no Caso Master, que expõe as vísceras de uma promiscuidade entre a cúpula política, o alto escalão do Judiciário e o Poder Legislativo. O escândalo vai muito além das cifras bilionárias movimentadas por meio de corretoras da Faria Lima ou da sonegação de combustíveis; ele revela o coração das trevas: a encomenda de assassinatos ao PCC e a entrada definitiva do narcocrime no Executivo e no Legislativo. Não se trata mais de infiltração, mas de uma simbiose em que a violência e o tráfico ditam as regras nos gabinetes. No momento em que o Brasil se choca com essas revelações, nenhum parlamentar tem o direito de alegar desconhecimento: não adianta punir soldados sem encurralar os chefões de terno e toga que operam o braço armado e financeiro do crime.
A nação caminha, assim, para mais um capítulo de frustração, em que o barulho das algemas nos peões serve apenas para abafar o silêncio cúmplice dos gabinetes. Se o Caso Master terminar em nada, como tudo indica diante da inércia legislativa e do recuo no PL Antifacção, o Brasil confirmará sua vocação para ser um país onde a lei é um instrumento de controle dos pobres e um adereço de luxo para os poderosos. A tragédia não é apenas o crime ocorrido, mas a certeza de que a estrutura que permite a entrada das drogas no poder e a banalização do crime de encomenda continua operando em plena luz do dia, devidamente protegida por quem deveria destruí-la. Sem romper esse ciclo, a justiça brasileira continuará sendo um teatro de sombras, onde a impunidade é o ato final garantido para quem habita o topo da pirâmide.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



