colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O Teatro das Sombras: A Elite Blindada e a Tragédia Brasileira

01/03/2026 - 07:40
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A semana desenhou um painel fidedigno da nossa disfunção institucional, um combo de fatos que simbolizam bem o estágio de degradação da tragédia moral que tomou conta deste país. De um lado, o desfecho tardio do caso Marielle Franco com a condenação de Domingos e Chiquinho Brazão a 76 anos de prisão, e do ex-chefe de polícia do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, a 18 anos por acobertamento.

Um alento, após oito anos de uma novela criminal e jurídica marcada por investigações manipuladas, provas destruídas e testemunhas plantadas e outras ameaçadas... Enredo que só se alterou com a mudança dos ventos políticos que de bolsonarista, virou petista e com ele, a entrada da Polícia Federal na apuração, culminando na delação do assassino confesso.

A celebração desse avanço institucional, porém, foi de imediato precocemente sufocada pela realidade política brasileira. Enquanto o Judiciário, como poucas vezes visto nos últimos anos, exerceu o seu mister nessa vergonhosa pantomina a que se prestou no caso Marielle, o Legislativo esteve operante como nunca promovendo mais uma mágica de autoproteção.

O Projeto de Lei Antifacção, votado sob o pretexto de endurecer o combate ao crime, revelou-se um torniquete seletivo. Num acordo espúrio entre governo e oposição, as punições severas foram reservadas apenas aos soldados das facções classificadas como "ultraviolentas". Quando o texto ousou tocar no crime de colarinho branco, na lavagem de dinheiro no mercado financeiro e na promiscuidade de escritórios de advocacia e consultoria jurídica que hipotecam seus CNPJs a atividades ilícitas, os parlamentares recuaram em uníssono.

É a rude confirmação da teoria dos 3 pês: neste país só vai para a prisão pretos, putas e pobres, não necessariamente nessa ordem. Atrevo-me a inserir uma quarta categoria: prisões de alguns, raros “azarados” que eventualmente se insurgiram contra os “reis” de plantão do judiciário, do executivo e legislativos deste país. Penas leves, breves, frequentemente transformadas em alternativas, como convém nesse regime de compradio. Afinal, nele, nunca se sabe o dia de amanhã, então é preciso manter o faz de conta preventivo, daí, vai que...

Assistimos todos, estupefatos, a um sistema que sacrifica seus peões para preservar os reis. Ao descartar a taxação das bets para financiar a segurança e ignorar o aumento de penas para organizações criminosas em geral, o Congresso garante que banqueiros, advogados e juízes envolvidos em tramas escusas durmam tranquilos. A manutenção dessa estrutura de privilégios e impunidade serve a um propósito claro: garantir que os verdadeiros donos do poder permaneçam intocáveis, mesmo quando suas digitais aparecem em crimes de sangue ou esquemas de corrupção endêmica.

Essa blindagem sistêmica atinge seu ápice no Caso Master, que expõe as vísceras de uma promiscuidade entre a cúpula política, o alto escalão do Judiciário e o Poder Legislativo. O escândalo financeiro é duas vezes maior que o da operação Lava Jato, tida até então como a maior do Brasil. Para quem “esqueceu” a que foi a Lava Jato: toda a cúpula jurídica à frente desse processo foi, literalmente, dizimada pela instância superior da justiça no Brasil sob os mais diversos – e absurdos – argumentos. Nesse país é perigoso ser um juiz ou promotor sério e cumpridor dos seus deveres...

Pois bem, as cifras bilionárias movimentadas por meio de corretoras da Faria Lima, da sonegação de combustíveis, da corrupção de centenas de fundos de aposentadoria pertencentes aos servidores públicos via prefeituras e estados, de uma bilionária lavanderia que passava por um banco público e ainda resvalava nos coitados dos aposentados como se vê está vendo na CPI do INSS, apenas e revela pequena parte do coração das trevas que boa parte de autoridades de todos os naipes permitiram - e convivem alegremente – tomarem de assalto o estado brasileiro: a encomenda de assassinatos ao PCC e a entrada do narco crime no Executivo, no Legislativo e Judiciário é hoje uma realidade.

Não se trata mais de infiltração, mas de uma simbiose onde a corrupção, a violência e o tráfico ditam as regras nos gabinetes. No momento em que o Brasil se choca com essas revelações, nenhum parlamentar, nenhuma autoridade judiciária e do executivo, tem o direito de alegar desconhecimento: não adianta punir soldados sem encurralar os chefões de terno e toga que operam o braço armado e financeiro do crime.

A nação caminha, assim, para mais um capítulo de frustração onde o barulho das algemas nos peões serve apenas para esconder a cúmplice dos gabinetes públicos estrelados deste país. Se o Caso Master terminar em nada, como tudo indica diante da inércia e do recuo no PL Antifacção, o Brasil confirmará sua vocação de ser um país onde a lei é um instrumento de controle dos pobres e um adereço de luxo para os poderosos.

Aliás, para sermos justos, não fosse alguns poucos e corajosos jornalistas e a Comissão criada pelo Senador Renan Calheiros na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A operação “abafa” do caso Master que anda por aí à toda, certamente teria logrado jogar o caso para as calendas dos gabinetes congelados do Supremo e daí... fico a imaginar a enorme pressão que uns e a outra estão sofrendo para não levar adiante as denúncias.

A tragédia não é apenas o crime praticado de caso pensado pelo Master e outros tantos, mas a certeza de que isso somente ocorreu porque seu dono adentrou com mesuras e salamaleques nas entranhas do poder e dali irradiou o seu joio por todo o tecido estatal. Estão aí os lamentáveis exemplos do Supremo, da CGU, do MPF e do BC (este de certa forma), que não nos deixa mentir.

Banalizar o crime de colarinho branco, que não apenas continua operando em plena luz do dia – e mais e mais à vontade - devidamente protegido por quem deveria destruí-lo, é crime ainda maior, deveria ser inafiançável e ter pena máxima não reduzível. Sem romper esse ciclo, o Brasil continuará sendo um teatro de sombras onde a impunidade é o ato final garantido para quem habita o topo da pirâmide.

Até quando? É a pergunta ao cidadão que, assolado, paga impostos, sofre nas filas dos diversos órgãos de governo pelo serviço pessimamente prestado pelo Estado, que vê dia a dia os seus direitos estuprados por uma camarilha de ladrões que não para de crescer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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