Pesquisa Eleitoral: a Arte Secular de Errar com Confiança
Há um gênero que sobrevive a qualquer fracasso, reinventando-se a cada ciclo eleitoral com a mesma cara de pau: a pesquisa eleitoral. Em 1948, o Chicago Daily Tribune imprimiu a manchete "Dewey Defeats Truman" antes mesmo de a apuração terminar, tão certo estava — apoiado nas pesquisas e na convicção de analistas de excelente reputação — de que o republicano Thomas Dewey havia vencido. Truman venceu de virada, o jornal se tornou piada perpétua na história da imprensa americana, e a indústria de sondagem aprendeu a lição. Por cerca de quinze minutos. Porque o erro retorna, sempre, vestido de "margem de erro" e maquiado de "metodologia robusta", como se o verniz técnico bastasse para encobrir o chute.
No Brasil, porém, a tradição não se limita ao erro honesto — ela chega à fraude deliberada, e o episódio fundador é de arrepiar. Em 1982, disputando o governo do Rio de Janeiro contra Leonel Brizola, o candidato governista Moreira Franco contou com algo bem mais sofisticado que uma pesquisa otimista: o Tribunal Regional Eleitoral fluminense contratou a Proconsult, empresa de informática ligada a ex-agentes do Serviço Nacional de Informações, para totalizar os votos. Dentro do sistema da empresa rodava uma função batizada de "diferencial delta", que sequestrava percentuais de votos de Brizola, transformando-os em nulos ou simplesmente os transferindo para Moreira Franco. A fraude só não se consumou porque o Jornal do Brasil e a Rádio JB mantinham apuração paralela e perceberam a discrepância monstruosa entre os números oficiais e os próprios. O dono da Proconsult chegou a ameaçar os jornalistas que denunciavam o esquema. A Rede Globo, que havia montado o "Show das Eleições" em cima dos números fraudados, jamais admitiu publicamente qualquer responsabilidade. Brizola venceu por 3,6 pontos de margem real — depois de o país inteiro assistir, ao vivo, a uma tentativa de fraude eleitoral por computador comandada por militares.
E o Brasil nunca corrigiu o vício, apenas o pulverizou. Décadas depois, a fraude deixou de ser obra de um único esquema cinematográfico do regime militar e se tornou indústria de varejo. Em 2024, o Instituto Quality foi investigado por usar o nome de empresários sem autorização como "contratantes" de pesquisas em pelo menos 13 cidades de São Paulo, adulterando endereços e emitindo notas fiscais falsas — cobrando, segundo mensagens obtidas pela reportagem, até trezentos e sessenta mil reais como "prêmio" caso o candidato favorecido vencesse. Em Goiás, a Operação Leão de Nemeia do Ministério Público investigou suspeitas de pesquisas fraudulentas em oitenta por cento das cidades do estado nas eleições municipais — não uma fraude isolada, mas um mercado inteiro de manipulação funcionando à luz do dia. E o Instituto Phoenix, cujo responsável já foi condenado por crime eleitoral, conseguiu coordenar 937 pesquisas registradas em um único ano, mais do que IBOPE e Datafolha somados, na maior parte das vezes assinadas por um estatístico que prestava serviço a empresas sem habilitação alguma para fazer estatística. O Brasil não tropeça nas pesquisas eleitorais: ele monta, junto com o serviço, uma linha de produção para fraudá-las.
E chegamos a Alagoas, onde a palhaçada metodológica encontra sua versão mais antiga e mais didática. Porque o caso fundador, o que deveria estar tatuado na memória política do estado e que paradoxalmente quase ninguém lembra com a clareza devida, é 1990. Renan Calheiros, então deputado federal e líder do governo Collor na Câmara, concorria ao governo de Alagoas contra Geraldo Bulhões. E as pesquisas — todas elas, sem exceção, sem voz dissidente, sem um único instituto destoando do coro — davam vitória confortável a Renan. Gallup apontava vantagem de quatro pontos; Datafolha, de cinco; o próprio IBOPE, na boca de urna — que mede voto já depositado, não intenção, não projeção, não futurologia — registrou Renan com 45% contra 37% de Bulhões. Era, para qualquer leitura razoável daquele noticiário, eleição resolvida. Renan foi dormir governador eleito. Acordou, na apuração, derrotado: Bulhões fechou com 44,65% dos votos válidos contra 34,03% de Renan, um resultado que o próprio derrotado atribuiu a fraude, denunciou em todas as urnas, e que levou a Justiça Eleitoral a anular 55 mil votos e convocar eleições suplementares em mais de cem urnas — sem que isso revertesse o resultado final. As pesquisas não erraram por uma virada de última hora nem por indecisos que mudaram de ideia: erraram em tudo, do primeiro levantamento à boca de urna, contra um resultado que a própria Justiça Eleitoral reconheceu como manchado por fraude. Ou seja: erraram a pesquisa, e a eleição também foi fraudada — duplo fracasso, mesmo episódio, mesmo estado, e ainda assim o caso raramente entra na lista dos grandes vexames nacionais, perdido entre o rompimento espetacular de Renan com Collor e o "traição" gritado nos jornais da época.
Trinta e seis anos depois, Alagoas não aprendeu nada, e a Justiça Eleitoral parece ter desistido de fingir surpresa. Só em 2026, o TRE-AL já suspendeu a pesquisa da Falpe Pesquisas, realizada apenas na região metropolitana de Maceió para medir cargos estaduais, como se o interior do estado simplesmente não votasse. E quando o Instituto DataTrends tentou reciclar pesquisa já derrubada, sem corrigir nenhuma das falhas técnicas apontadas, a Justiça Eleitoral derrubou de novo — porque, ao que parece, em Alagoas até o erro é reaproveitado, feito plástico, embalado de novo e revendido com outro rótulo.
O capítulo mais caricato, porém, é o atual: uma pesquisa do Grupo TDL sobre o Governo de Alagoas, com nota fiscal de quarenta e sete mil reais, atribuída como financiadora a uma empresa de Arapiraca que nega veementemente qualquer contratação, promete boletim de ocorrência, notificação extrajudicial e comunicação formal ao TRE e ao TSE. Isto é: a pesquisa pode ter sido paga por absolutamente ninguém identificável — o que, no fundo, talvez seja a explicação mais honesta já produzida para a precisão histórica do setor.
A conclusão é irritantemente simples, e ninguém na imprensa especializada parece ter estômago para dizê-la com a clareza que o tema merece: pesquisa eleitoral no Brasil, e sobretudo em Alagoas, não é ciência aplicada — é teatro estatístico vendido a clientes que com frequência alarmante não existem, fiscalizado tarde demais, depois que o estrago na opinião pública já foi feito, e esquecido convenientemente até a eleição seguinte, quando o ciclo recomeça, idêntico, como se a memória institucional fosse o único dado que essas empresas jamais conseguem — ou querem — coletar.
PS: há mais de 2 anos que esta coluna alerta para o estágio de deterioração mercadológica e financeira da Braskem – mas parece que santo de casa por aqui não faz milagre mesmo. Durante todo esse tempo, estupefato, assistimos ao mercado de capitais e o mercado financeiro brincar de faz de conta especulando na cara da CVM com as ações da empresa. Quando até a velhinha de Taubaté já sabia que a empresa estava indo direto à bancarrota! Resultado: nos próximos dias, não meses, deverá entrar em recuperação judicial.
E sabe quem vai perder tudo por aqui? Como sempre as vitimas do desastre que ela provocou e que tem em setores estratégicos da prefeitura e da justiça federal em Alagoas defensores renhidos que, sistematicamente, contra todos os argumentos, se negam a formalizar os afetados como credores da multinacional. Viva Alagoas!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



