colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

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A resultante bolsonarista: a discriminação se amplia


A discriminação deixou de mirar apenas o Nordeste e alcança agora quem votou em Lula. Para a franja fanatizada do bolsonarismo, a nossa região e os eleitores do presidente reeleito formam um território de subalternidade a ser estigmatizado, num roteiro de racialização que remete aos piores capítulos do século passado. Foram 27 milhões de postagens hostis aos nordestinos nas 72 horas seguintes ao primeiro turno e outras 14,7 milhões depois do segundo. A hostilidade já saltou das redes para listas de boicote a comerciantes, ameaças de demissão e estudantes de medicina paulistas chamando nordestinos de analfabetos.

Ali, os ataques começaram pelo voto e logo se voltaram contra bolsistas do Prouni e colegas que vendem lanche nos corredores, o que revela o fundo da questão: o eleitor de Lula passou a ser tratado como nordestino honorário, pobre que ousou ocupar um lugar que não lhe estaria reservado. Tudo em nome do senador que chamava de “irmão” o dono do Banco Master e mantinha empresa no mesmo endereço das firmas do Careca do INSS, preso sob acusação de saquear aposentados.

Quem trata o fenômeno como desabafo de eleitor contrariado esquece que ele tem data, método e reincidência. Em 31 de outubro de 2010, na noite da vitória de Dilma, uma estudante de Direito de São Paulo escreveu que nordestino “não é gente” e pediu que alguém fizesse um favor ao estado afogando um deles. Foi denunciada pelo Ministério Público Federal e condenada em 2012, com a pena convertida em serviços comunitários.

O roteiro voltou em 2014, em 2022 e agora, sempre que o Nordeste decide uma eleição, com os insultos de sempre: “paraíba”, “baiano”, “cabeça-chata”, palavras que há décadas marcam quem deixou o Sertão para carregar o peso nas obras e nas fábricas do Sudeste. O historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior mostrou que a própria imagem do Nordeste como terra de seca, atraso e gente miúda foi fabricada pelo discurso das elites, e é essa caricatura que circula hoje em vídeo de influenciador e em grupo de faculdade de medicina.

O preconceito tem diploma, endereço e renda. Há ainda uma dimensão racial que o debate costuma contornar. Segundo o Censo de 2022, 72,6% dos nordestinos se declaram pretos ou pardos, e a região tem a maior proporção de pretos do país. Quando o bolsonarista chama o nordestino de ignorante e preguiçoso, repete contra a nossa gente o vocabulário com que o Brasil escravista desqualificava o negro e o Nordeste. Por isso a lei que pune o racismo alcança também a discriminação por procedência, e foi com base nela que a estudante de 2010 respondeu.

O estereótipo do nordestino que vive de esmola federal inverte a realidade. Pelas contas que fiz para um livro em fase final, o Nordeste transferiu ao Sul e ao Sudeste, só em 2024, quase 15% do seu PIB, pelo comércio desigual, pela poupança que os bancos captam aqui e aplicam lá e pelos lucros que sobem para as matrizes.

E, mesmo drenado, o Nordeste produz. Daqui sai mais de 90% da energia eólica gerada no país, e foi o modelo de alfabetização criado no Ceará que o governo federal transformou em política nacional. Uma região capaz disso dispensa piedade e exige apenas que a riqueza do seu trabalho fique onde é produzida. O xingamento de parasita, vindo de quem se beneficia dessa transferência, diz mais sobre quem xinga do que sobre quem trabalha.

Flávio Bolsonaro tem responsabilidade direta nesse clima. Na noite da derrota, declarou “impossível aceitar” o resultado e chamou de sacanagem a prorrogação da votação que a sua própria campanha havia pedido. No dia seguinte, intimado a entregar os passaportes, garantiu que nunca pensara em sair do país. Pouco depois deixava o Brasil às escondidas, descumprindo a ordem do Supremo, para desembarcar em Miami e publicar uma carta em que se proclamava “verdadeiro presidente eleito” (sic!)

Este país precisa de uma limpeza que vá muito além do bolsonarismo golpista, e ela só virá com um governo qualificado, montado por competência e não por loteamento. E com Lula à frente, só com o povo na rua para isso começar a acontecer.

Por enquanto, torço para que tenha sido a última vez que tenhamos tido um Bolsonaro candidato a presidente. Isso só demonstra o nível de lama em que este país está atolado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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