É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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O expressionismo na pintura de Pierre Chalita

13/03/2026 - 16:02
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O expressionismo é um movimento das artes plásticas que ganhou força no final do século XIX, tendo entre seus precursores Van Gogh e Edvard Munch. Em sua obra mais conhecida, “O Grito”, Munch expressa a sensação de angústia e pânico que afirmou ter sentido naquele dia. Essa sensação intensa de angústia é transmitida diretamente ao observador da tela.

Sob a ponte retratada em O Grito, existia um matadouro de porcos. Diz-se que, quando os animais eram abatidos, seus gritos ecoavam de forma aguda e invadiam o espaço ao redor.

A imagem criada por Munch parece condensar um grito que não pertence apenas a uma pessoa, mas à própria natureza, ao ambiente e ao espírito humano diante da angústia.
Assim, o grito da figura no quadro pode ser visto como uma metáfora ampliada – um eco dos sons do mundo, das dores visíveis e invisíveis. No fundo, “O Grito” não seria apenas alguém que grita. Seria alguém que ouve o grito do mundo.

O movimento expressionista teve suas manifestações mais consistentes na Alemanha, antes da primeira grande Guerra(1914-1918). No Brasil, Anita Malfatti, com a obra “O Homem Amarelo”,foi das primeiras artistas a se expressar, seguida de Lasar Segall.

A diferença fundamental entre impressionismo e expressionismo está no modo de representar a realidade. O impressionismo busca registrar na pintura aquilo que o olhar percebe – o jogo de luz, cor e sombra. Já o expressionismo procura expressar aquilo que o artista sente interiormente, traduzindo emoções, tensões e estados de espírito. Nesse sentido, Chalita demonstra grande domínio artístico. Em suas obras surgem imagens sutis e muitas vezes ocultas dentro da composição principal, recurso associado ao fenômeno da pareidolia – quando o olhar humano identifica formas e figuras dentro de padrões aparentemente abstratos.

Assim, ao observar suas telas, inicialmente percebemos apenas o motivo central; porém, com o tempo e a contemplação, novas imagens e interpretações parecem emergir da pintura. Chalita trabalha frequentemente com o contraste entre duas cores predominantes, desenvolvendo séries que denominou “Do Baile” e “Do Paraíso”. Na série “Do Baile”, explora o humano em sua ebulição vital, enquanto em “Do Paraíso” aborda a luta simbólica entre o bem e o mal.

O artista também dialoga com a mitologia grega, utilizando a figura de Pégaso, símbolo de imortalidade. Para ele, o cavalo representa uma força plástica e vital extraordinária, associada à tensão entre Eros – energia vital, desejo e criação – e Tânatos – a ideia da morte. Nas imagens de Chalita, esses elementos tornam-se visíveis de forma progressiva ao observador. Em algumas obras, uma paisagem aparentemente simples revela, à primeira vista, apenas sua composição principal; porém, observadas com atenção, podem surgir outras figuras e formas, como uma família de corujas ou diversas imagens ocultas que ampliam o universo simbólico da pintura.

Há inúmeras imagens esmaecidas no segundo plano – fenômeno conhecido como pareidolia, – seja de forma deliberada, ou naturalmente a partir de suas pinceladas curvas e sobreposições cromáticas. Recomenda-se assistir no YouTube ao documentário “Chalita: o homem, a obra, o artista”, produzido pela professora Morgana, no qual especialistas e o próprio pintor comentam sua trajetória e seu processo criativo.

Em uma de suas telas mais fascinantes, vê-se um Pégaso cercado por inúmeros pássaros. Observando-se atentamente, percebe-se sub-repticiamente a presença de um segundo cavalo.

O braço do primeiro cavalo forma, de maneira engenhosa, o pescoço da segunda figura. Essa imagem oculta só se revela quando o observador mantém certa distância da tela ou a contempla de relance, apertando levemente as pálpebras, como quem tenta enxergar algo muito pequeno que não se revela ao olhar direto.

A pincelada Chalita é emblemática: definida num estilo e facilmente identificável pelos que amam o transexpressionismo Chalita. Ou seja, ia além do expressionismo clássico, segundo Solange Lages, a companheira.

“Como todo artista formado pela contemplação dos grandes mestres, cuja obra nasce de inúmeras horas de observação da tradição pictórica, Pierre Chalita revela em sua pintura ecos do expressionismo europeu, evocando a intensidade dramática de James Ensor e a espiritualidade pictórica de Georges Rouault, entre outros”, concluíram Carnielli e Dantas.
Confesso que sinto certo constrangimento por só agora ter descoberto plenamente a obra de Chalita. Tive a oportunidade de vê-lo apenas duas vezes.

Somente mais tarde, fui apresentado de fato à dimensão de sua obra. Foi então que adquiri quatro telas cuidadosamente escolhidas por Solange do rico acervo da Fundação Chalita.

Infelizmente, o Estado de Alagoas, como uma madrasta ingrata, acabou por expulsar o Museu Pierre Chalita da Praça dos Martírios, após meio século de comodato e não renovou o convênio com a Fundação Chalita, exigindo a devolução do imóvel restaurado, que custou cem mil reais à administração da Fundação Chalita. O que foi feito.

Parodiando Drummond, poderíamos dizer que lutar com a arte é uma luta aparentemente vã, mas ainda assim lutamos desde que nasce a manhã. Essa luta permanece viva na dedicação da juventude aguerrida de Sônia Luiza, José Lages Neto e Jean Pierre, que, por meio da Fundação Chalita, trabalham incansavelmente para reabrir o museu dedicado à esplendorosa e genial obra de Pierre Chalita. Segundo garantiu a presidente Sônia, o museu será reaberto.

A obra de Chalita nasceu em Alagoas – mas sua luz é universal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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