Qual a solução para o Brasil?
Texto de Ricardo Nogueira – médico e prof.da Ufal
Somos um povo que vive de pequenos trabalhos chamados biscates, daí dizer-se que fulano sobrevive de bicos e é, portanto, um biscateiro. A grande maioria da população não tem conhecimento algum do seu ofício. E como o faz? Faz porque viu fazer, porque escutou sobre e, então, decidiu tentar. Somos um povo inteligente, mas inteligência apenas não basta; urge preparo técnico.
Muitos enveredam pelo caminho mais fácil: atividades ilícitas, como roubos, crimes e tráfico de drogas, de modo que hoje o Brasil tem a 3ª maior população carcerária do planeta. Por que será? Porque grande parte do nosso povo é literalmente abandonada pelos governos. Assim, tornam-se presas fáceis do narcotráfico, que os transforma em marginais.
Para sairmos desse atoleiro, carecemos de conscientizar a população da imprescindibilidade de um modelo de capacitação para todos os brasileiros, crianças e adultos.
O foco deverá ser a faixa etária de 0 a 3 anos, começando, portanto, por instruir as mães e, em seguida, atuar em creches educativas, o que exigirá profissionais especializados para aproveitar o período em que os cérebros estão frescos e, portanto, aptos à alfabetização e à fixação de informações relevantes, que guiarão esses menores por toda a existência, inclusive no aprendizado de línguas estrangeiras, que passarão a falar sem quaisquer sotaques.
A partir dos 4 anos, faz-se imprescindível uma formação sempre voltada para a prática e em tempo integral, ministrada não por simples aprendizes de professores, mas por educadores qualificados.
O que se constata neste país é o desperdício de cérebros, com crianças chegando às escolas aos 7 ou 9 anos, tendo, assim, perdido quase uma década.
Todos os cursos deverão ser profissionalizantes, tendo sempre em vista o porquê de todos os ensinamentos. Por exemplo: qual a razão de aprendermos análise sintática? Por que aprender a extrair a raiz quadrada de determinado número?
Do ensino atual ministrado no Brasil, os indivíduos só irão utilizar 5% no seu cotidiano. Então, 95% do que é repassado aos alunos mostra-se rigorosamente inútil.
Nossas autoridades pedagógicas ainda não perceberam que, em aulas meramente teóricas, a atividade cerebral dos estudantes é menor do que aquela de quando estão dormindo. Ensinamento desvinculado de sua aplicação prática não tem serventia.
Como exemplo, temos a professora Débora Garofalo, que foi dar aulas em uma escola municipal no extremo sul de São Paulo, uma área marcada pela desigualdade e pela violência. Seu intuito era fazer projetos inovadores, capazes de levar tecnologia para o ambiente escolar, mas não sabia como. Recebeu relatos sobre montes de lixo nas ruas do entorno.
Com os alunos, trouxe o material descartado e, com ele, construiu robôs em forma de brinquedos. Aplicou conceitos das aulas de matemática e ciências para produzir suas invenções. Além dos ganhos de aprendizado, verificou mudanças de comportamento, como disciplina e autoestima. Os alunos passaram a externar o desejo de entrar na universidade.
Assim, a mestra mostrou que a educação abre portas na vida das pessoas.
Qual a solução para o Brasil? Qualificar os brasileiros.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



