A desmoralização da formação médica no Brasil
Texto de Ângela Canuto – Médica e Diretora da Faculdade de Medicina de Alagoas/Ufal
O Brasil atravessa hoje um processo preocupante de desmoralização da formação médica. Trata-se de um fenômeno complexo, mas que começa de forma clara ainda na porta de entrada dos cursos de Medicina. Durante décadas, o acesso à carreira médica esteve associado a processos seletivos altamente exigentes, como o vestibular tradicional e, mais recentemente, o ENEM. Esses exames, apesar de imperfeitos, funcionavam como filtros mínimos de conhecimento, preparo intelectual e capacidade de enfrentamento de uma formação longa e rigorosa.
Esse cenário vem sendo substituído, em parte significativa do ensino privado, por processos seletivos online, frágeis e pouco criteriosos. Em algumas faculdades particulares, candidatos ingressam com notas que jamais os colocariam próximos da concorrência de uma universidade pública. A Medicina, que deveria ser tratada como formação estratégica para a sociedade, passa a ser encarada como produto de mercado.
A recente avaliação do ENAMED evidenciou essa realidade ao expor cursos que funcionam claramente como empresas educacionais, cujo principal objetivo é o lucro. São faculdades que cobram mensalidades entre 10 e 15 mil reais, valores incompatíveis com a renda da maioria das famílias brasileiras. Conheci pessoalmente uma família que se organizava em cotas: pais, tios e até a aposentadoria da avó contribuíam para pagar o curso de Medicina do neto. O sacrifício financeiro é enorme, mas, em muitos casos, não se traduz em formação de qualidade.
As consequências desse modelo começam a aparecer de forma dramática na assistência à saúde. Recentemente, o país se chocou com o caso do menino Benício, que entrou em um hospital caminhando, sorridente, e saiu morto. A pergunta que ecoa é simples e devastadora: por que morreu o menino? A conduta médica foi inadequada — adrenalina intravenosa foi prescrita quando o correto seria uma nebulização. Não se trata de um detalhe técnico irrelevante, mas de um erro básico de manejo clínico. Chama atenção o fato de a profissional envolvida ter se formado em um curso cuja média no ENAMED foi extremamente baixa.
Sou médica gastroenterologista e dirijo a Faculdade de Medicina de uma universidade federal na qual também me formei. Falo com a tranquilidade e a satisfação de quem sabe que ali formamos médicos com sólida base técnica, ética e humana. Defender critérios rigorosos de seleção, avaliação contínua e compromisso social na formação médica não é elitismo — é esponsabilidade com a vida. A Medicina não pode ser reduzida a um negócio. O preço dessa escolha tem sido pago pelos pacientes.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



