Medicina: Ciência & Arte na Sociedade Hiperconectada
No próximo 18 de outubro se comemora o dia de São Lucas, também dia do médico. Patrono dos artistas e dos médicos, por ter sido médico de formação. Viveu 84 anos, foi martirizado e não teve filhos nem esposa. Muito culto por ser médico, usou em seus textos uma língua robusta: o grego.
“Na medicina, ciência, arte e técnica são inseparáveis. O médico, em qualquer atuação, necessita comportar-se guiado por conhecimentos, habilidades e normas estabelecidas. Disponível para todos, em qualidade e quantidade para toda a população. Saúde igual. Qualidade dos meios diagnósticos e terapêuticos. Qualidade do trabalho profissional, disponível para todos, retribuição salarial condigna, e formação educativa e de atualização”, assinalou o médico Gilberto de Macedo.
Agora que o Congresso Nacional aprovou um piso mínimo para a carreira médica, parece que a implantação não acontece nunca. Salário que permita segurança econômica, equilíbrio emocional, pois a educação insuficiente predispõe à imperícia; e o subsalário propende à imprudência da pressa e à negligência da ansiedade, facilitadas pelo estresse de subempregos. Vivemos momentos intensos pela exploração dos convênios e salários irrisórios da rede pública.

“Se jamais há de se admitir o médico mercantilista, por outro lado, numa sociedade capitalista, o médico sacerdote é um mito”, assinalou o mestre Gilberto de Macedo. Vivemos num Estado paupérrimo, onde apenas 8% da população tem acesso a convênios e 70% ganha até um salário mínimo.
A celebração do Dia do Médico em 2026 nos convida a uma reflexão profunda sobre o equilíbrio entre os avanços científicos como a medicina de precisão e a biópsia líquida e o desgaste da essência humanista da profissão. Não há comunidade humana sem medicina; constitui-se na história da sociedade, porque ninguém suporta a dor. Além da integridade do corpo, o médico dispõe também do insondável mistério do sofrimento humano. No entanto, o exercício dessa arte no século XXI equilibra-se na corda bamba entre o milagre tecnológico e as crises estruturais de uma sociedade hiperconectada.
Pelo prisma do progresso, vivenciamos uma era de ouro. A medicina de precisão customizou tratamentos ao código genético, enquanto a inteligência epidemiológica refinou a previsão de pandemias. Na oncologia, terapias-alvo e imunoterapia avançaram a ponto de superar o estigma de letalidade do câncer. A cirurgia preventiva e a edição genética transformaram a predição em blindagem.
Por outro lado, o diagnóstico da atualidade revela sintomas alarmantes na própria estrutura médica. Sob a ótica de Byung-Chul Han, os profissionais estão inseridos na "sociedade do cansaço", na qual a transparência digital e a autocobrança geram níveis inéditos de burnout. Paralelamente, a tese de Ivan Illich mostra-se viva: a autonomia do indivíduo sobre seu bem-estar foi confiscada por um complexo médico-industrial focado no lucro, que pretere a prevenção básica.
Essa distorção mercadológica gera contradições brutais. Enquanto um transplante de fígado pode consumir um milhão de reais, o mesmo montante em vacinas contra a hepatite B erradicaria focos de cirrose em massa. Pressionado pelo medo do erro e pela judicialização, o médico refugia-se na medicina excessiva, soterrando o paciente sob exames desnecessários. Para agravar, burocratas transformaram o cuidado em métricas frias de custos, ignorando o acolhimento. Esse ecossistema é alimentado pela proliferação desenfreada de escolas médicas, cuja explosão de vagas negligencia a qualidade técnica e ética.
Resgatar a medicina em 2026 exige compreender que a técnica isolada não substitui o olhar. O futuro da profissão depende da coragem de reverter a lógica mercantilista, devolvendo ao médico o tempo necessário para a escuta atenta. Afinal, a ciência otimiza a cura, mas continua sendo a arte de acolher o sofrimento. Por isso, Paracelso assinalou que “a medicina é quase toda amor”. Concluo com um dos nossos maiores, prof. dr. Ib Gatto Falcão: "cuidei dos ricos desta terra e não enriqueci; cuidei dos pobres desta terra e me engrandeci".
Esta crônica é dedicada aos colegas médicos que põem todo o fulgor da profissão para aliviar a dor, sem importar a quem alcance, sendo para todos os seus pacientes uma esperança.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



