É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), cirurgião especializado em cirurgia digestiva e membro do Conselho Editorial do Journal of Gastrintestinal Surgery OPEN (EUA). Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

As lágrimas dos homens


Texto de Roberto Sarmento Lima – Titular Emérito de Literatura Brasileira da Ufal e crítico literário

Muitos homens se acostumaram à máxima que ouvem desde a infância: homem não chora. Nem quando leva uma queda e se arrebenta nos joelhos ou no nariz; nem quando volta para casa apanhado; nem quando perde o emprego e fica de bolsos vazios. No máximo, ocorre uma furtiva lágrima quando lhes morre a mãe ou quando a mulher os abandona por um motivo qualquer. Calados, eles vão para o quarto chorar, tomando cuidado para que ninguém os veja nesse momento de... humilhante fraqueza moral ou psíquica.

Acontece que nem sempre foi bem assim. Os homens choram muito, talvez até mais do que as mulheres, que sabem dar a volta por cima como ninguém — e, por isso, elas vivem mais do que os homens. A literatura ocidental, há quase 3.000 anos, registra fatos em que homens se deprimem e choram.

Como a Odisseia de Homero está na moda — nunca vi tanto frisson em torno do filme de Christopher Nolan que faz uma releitura do clássico grego —, evoco a figura central dessa epopeia, Odisseu (para nós, Ulisses, mas fiquemos com o nome grego original dessa personagem). Tadinho dele! Chora por tudo. No livro, mas não no filme. Os seus companheiros de aventuras choram as pitangas, principalmente de medo das ameaças que surgem na paisagem bela e hostil. Quando li essa obra no fim da minha adolescência, já entrando no curso de letras para me profissionalizar como professor de literatura, isso de Odisseu não me tinha chamado atenção. Reli agora o volume porque quis avivá-lo na memória e assistir ao filme de Nolan com mais confiança. Foi aí, então, que percebi — mesmo no livro, ou apenas nele — a modernidade de Homero. Homem também chora.

Odisseu debulha-se em lágrimas por tudo que lhe tira a paz e a firmeza. A começar pelos guerreiros, “meus fiéis companheiros, gemendo lastimosamente e derramando abundantes lágrimas”, depois que o herói, numa barganha com Circe, que os transformara em porcos, consegue dela que lhes devolva a forma humana original (Rapsódia V); ou, quando se lembram eles dos amigos mortos, “puseram-se a chorar”, até adormecerem de tanto fungar (Rapsódia XII).

Por sua vez, Odisseu, numa visita ao Hades, reencontra Elpenor, já falecido, que reclama de um sepultamente digno: “ao vê-lo, as lágrimas jorraram-me dos olhos” (Rapsódia XI). Ou, ainda, ao fim de tudo, reencontrando o pai Laertes, velho, andrajoso, cuidando da terra, Odisseu, “ao vê-lo alquebrado pela velhice e com o coração cheio de tristeza, não pôde conter as lágrimas” (Rapsódia XXIV). Homero chega até a comparar — com as lágrimas vertidas “naturalmente” por mulher — o choro masculino: “do mesmo modo que uma esposa se pranteia, inclinada sobre o marido, tombado diante da cidade”, Odisseu, o herói que não consegue disfarçar sua emoção, “derramava de suas pálpebras comoventes lágrimas” (Rapsódia VIII).

Se cenas pungentes assim eram plausíveis na Antiguidade grega, tão ciosa de sua racionalidade e de sua filosofia, elas parecem hoje, neste nosso mundo, vergonhosas. Por isso homens se riem das lágrimas públicas de outro homem, inferiorizam-no, degradam-no, insultam-no, numa zombaria machista nada heroica, levando às vezes ao enfrentamento corpo a corpo, com direito a matar o frágil semelhante. Foi assim que um jovem ator, indo ao campo do Rock in Rio, conheceu brutal vilipêndio por sua condição de homossexual, ao menos no papel que interpreta numa novela das 9 horas. Faltou Odisseu, do nada, chegar e dar a lição a esses seus pósteros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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