Lágrimas femininas
Texto de Ana Maria Cavalcanti – pediatra e Mestra em Saúde da criança pela Ufal
Dias atrás, “As Lágrimas dos Homens” foram motivo de rememorações de Odisseu, Penélope, Circe e personagens outros da famosa história que nos arrebata, desde tantos séculos antes da Era Comum. Lágrimas de olhos aventureiros para dar exemplo e vazão aos que sentirem vontade de chorar.
Crianças, choramos de forma igual. Adultos, se sentimos tristeza, alegria, medo, emoção, os condicionamentos sociais e a biologia parecem fazer diferente a forma de reagir com lágrimas entre homens e mulheres.
Pois bem, continuemos a conversar sobre lágrimas. Desta vez não transbordando de uma face masculina, são lágrimas femininas que podem não significar apenas labilidade de emoções, uma depressão atípica senil, solidão e invisibilidade.
As carpideiras de Jerusalém (Jeremias 9:17-18), no Velho Testamento... O Senhor mandava chamar mulheres pranteadoras profissionais parar guiar o povo no choro e no lamento público. Um choro coletivo feminino para processar as perdas, como uma catarse.
De forma individual, as dores femininas são contextualizadas com tamanha beleza em certas personagens, que nos comovemos, homens e mulheres, creio eu, ao choro de Fantine, Madame Bovary, Anna Karenina.
No primeiro caso, a personagem Fantine em Os Miseráveis chora pela pobreza extrema, pela falta de recursos, por sua dignidade abalada, pela filha distante. Emma assume lágrimas de tédio: difícil não se desesperar diante de tantas histórias de romance perfeito, um contraponto à monotonia, tudo muito insosso para Madame Bovary. Anna Karenina não, suas lágrimas respondem por suas escolhas. Tolstói resolve isolar a personagem de seu meio social, do próprio amor, e “é impossível ser feliz sozinho”.
Voltemos às Américas. Água Para Chocolate. Laura Esquivel apresenta a culinária mexicana como um refúgio de emoção. Caem lágrimas de tristeza de Tita em um bolo de casamento, e os convidados passam a chorar também de dor e melancolia. Amor e herança mítica ultrapassam continentes.
Há um conto de Conceição Evaristo, “Olhos d’Água”, carregado de choros antigos e silenciados, onde as lágrimas não são sinal de fragilidade, mas de resiliência. E suas Insubmissas Lágrimas de Mulheres, cheias de opressão, acendem sinal de alerta na literatura contemporânea.
Fazer outras citações daria não um vale, mas um oceano.
A Bíblia assegura que as lágrimas humanas não passam despercebidas; serão recolhidas em um odre e Deus as enxugará, de homens e mulheres. Devoção, arrependimento, angústia, dor do luto e da rejeição, o que as provoca, terá a atenção divina.
Vi lágrimas em olhos de uma mulher muito valente pelo fato de possuir tesouros impossíveis de desapego: seis filhos que criou sozinha desde cedo, quatorze netos e vinte e dois bisnetos, conta que cresce quando em vez. Choro pela finitude, pela proximidade da morte. Por amar a vida, pela falta de necessidade de ir até o Além encontrar Deus, que já está dentro de si. Um choro contido, silencioso, carregado de saudade. Lágrimas maternas para as quais eu não tenho consolo e deixo derramadas por aqui.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



