Jornalista, escritor, colunista do Jornal Extra, da Gazeta de Alagoas e da Tribuna do Sertão, além de presidente do Instituto Cidadão.

Conteúdo Opinativo

Escala 6x1: entre o direito legítimo e o oportunismo eleitoral

05/02/2026 - 09:54
A- A+

Reduzir jornada é debate sério. Transformar o tema em promessa de campanha é irresponsabilidade com quem trabalha e com quem emprega.

A discussão sobre o fim da escala 6x1 seis dias de trabalho para um de descanso é legítima. O trabalhador brasileiro merece qualidade de vida, tempo com a família e condições dignas. Mas há uma diferença enorme entre defender direitos e explorar sentimentos. Quando um tema complexo vira bandeira de campanha, o risco é grande: o discurso sobe, o aplauso vem, mas a conta chega depois e chega para quem menos pode pagar.

Reduzir jornada não é decisão ideológica; é decisão econômica. Países que alteraram suas cargas horárias sem planejamento enfrentaram dificuldades. A França instituiu a semana de 35 horas e precisou flexibilizar regras diante do aumento de custos e da pressão sobre empresas. A Venezuela reduziu jornada em meio a fragilidade econômica e viu sua crise se aprofundar. Já a Coreia do Sul conseguiu implementar mudanças porque possui alta produtividade e planejamento gradual ainda assim com impactos e ajustes.

O Brasil não é a Coreia do Sul. Temos informalidade elevada, carga tributária pesada sobre a folha e milhares de pequenos negócios que sobrevivem no limite. Uma mudança abrupta pode gerar efeito contrário ao prometido: menos vagas formais, mais informalidade e aumento de preços. Não se defende o trabalhador destruindo o emprego.

Isso não significa que a escala 6x1 seja sagrada ou imutável. Significa apenas que qualquer transição exige responsabilidade: desoneração inteligente, estímulo à produtividade, negociação por setor, segurança jurídica. Reforma séria não nasce em comício. Nasce em estudo técnico e diálogo real.

É preciso falar sem rodeios: não se governa com slogan. Não se reestrutura o mercado de trabalho com frase de efeito. Quando a política troca cálculo por aplauso, o resultado costuma ser desemprego e frustração. E depois ninguém assume a autoria do estrago.

Se há compromisso verdadeiro com o trabalhador, que se apresente um plano completo, com impacto fiscal calculado, compensações definidas e cronograma responsável. Caso contrário, estaremos apenas diante de mais uma promessa embalada para a próxima eleição.

Trabalho é coisa séria. Emprego é coisa séria. O futuro de milhões de famílias não pode ser usado como palco para vaidades eleitorais. Quem transforma a escala 6x1 em bandeira fácil talvez esteja pensando no voto. Mas quem depende do salário no fim do mês precisa de muito mais do que discurso, precisa de responsabilidade.

O trabalhador precisa de proteção real, não de discurso. A economia precisa de previsibilidade, não de improviso. A escala 6x1 pode e deve ser debatida, mas fora do calor das campanhas e longe da tentação demagógica. Porque promessa fácil gera aplauso rápido e frustração duradoura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


Encontrou algum erro? Entre em contato