Jornalista, escritor, colunista do Jornal Extra, da Gazeta de Alagoas e da Tribuna do Sertão, além de presidente do Instituto Cidadão.

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Quando o professor desiste, o futuro fica órfão


E se os professores acabarem? O mundo desaba junto. Talvez não se ouça imediatamente o estrondo. Os prédios continuarão de pé, os carros circularão, os governos farão discursos e as telas permanecerão acesas. Mas alguma coisa essencial terá começado a morrer: a capacidade de uma sociedade transmitir conhecimento, formar consciências e oferecer às novas gerações um caminho que não seja o da ignorância, da submissão ou do abandono.

Na semana em que celebramos o Dia do Professor, em 15 de outubro, precisamos interromper as homenagens protocolares para uma reflexão incômoda. Flores, mensagens e aplausos têm seu valor. Mas nenhuma palavra bonita substitui salário digno, proteção, condições de trabalho e respeito. Há uma crueldade na distância entre o professor celebrado nas solenidades e aquele que, na manhã seguinte, volta à escola carregando cansaço, contas atrasadas e medo.

O país precisa olhar para essa contradição. Depositamos sobre os ombros dos educadores a responsabilidade de preparar o futuro, enquanto permitimos que muitos deles atravessem o presente sem segurança. Exigimos paciência de quem está esgotado, equilíbrio de quem sofre agressões, entusiasmo de quem perdeu perspectivas. E ainda chamamos de vocação aquilo que, tantas vezes, se tornou uma exigência de sacrifício sem limites.

Fui professor universitário na década de 1970. Na experiência que vivi, esse ambiente tóxico não existia. Havia dificuldades, naturalmente, mas também um respeito explícito. O professor podia ser questionado, suas ideias podiam provocar debates, e isso fazia parte do aprendizado. Sua dignidade, entretanto, não estava diariamente em julgamento. Entrávamos em sala para ensinar. O medo de uma agressão não fazia parte da preparação da aula.

Minhas lembranças de estudante são ainda mais antigas. Para entrar na sala, formávamos uma fila. Todas as sextas-feiras as turmas cantavam o Hino Nacional. Como estudávamos em um colégio católico, o primeiro ato ao entrar era uma oração, feita com respeito. Aqueles gestos marcavam o início de um tempo dedicado a aprender e a conviver.

Guardo essas cenas porque nelas reconheço um sentimento que precisamos recuperar: havia consideração por quem ensinava. O professor fazia parte das referências da família e da comunidade. Seu trabalho tinha um lugar na vida das pessoas. Agressão a um professor? Naquele universo em que cresci, parecia inconcebível. Tamanho seria o espanto coletivo que, na minha percepção de menino, o agressor quase teria de deixar a cidade. Era essa a dimensão do respeito.

Hoje, a violência contra educadores aparece no noticiário, provoca indignação e, pouco depois, é empurrada para o esquecimento pela próxima tragédia. Em março de 2023, a professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, foi morta em um ataque na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo. Outras três professoras também foram feridas a facadas. Uma mulher que estava na escola para ensinar teve a vida interrompida no próprio lugar onde deveria estar protegida. Seu nome precisa permanecer em nossa memória como o de uma pessoa com história, vínculos e sonhos, jamais como apenas mais um registro de violência.

Em novembro de 2022, os ataques a escolas de Aracruz, no Espírito Santo, também atingiram brutalmente a comunidade escolar. A professora Flávia Amboss Merçon, de 38 anos, morreu depois de ser baleada e permanecer internada em estado grave. Trinta e oito anos: uma vida inteira ainda por viver, aulas por preparar, estudantes por acompanhar. Quando uma professora é assassinada, sua ausência alcança a família, os colegas e todos aqueles que ainda poderiam aprender com ela.

Esses casos extremos expõem uma ferida que também se manifesta de maneiras menos visíveis. Há o insulto, a ameaça, a humilhação gravada e compartilhada, a intimidação diante de uma nota, a desautorização sistemática. Há o professor que procura ajuda e encontra uma instituição preocupada em encerrar o assunto. Há aquele que volta para casa tentando esconder da família o que sofreu.

O sofrimento também adoece. Uma pesquisa publicada em 2018 na revista Saúde em Debate, realizada com professores da rede pública do Paraná, identificou sintomas depressivos em aproximadamente 44% dos participantes. O resultado se refere àquela amostra, não a todos os docentes brasileiros, mas revela a gravidade de um problema que merece atenção contínua. Depressão, ansiedade e esgotamento precisam ser tratados com cuidado e responsabilidade, inclusive na organização do trabalho. É doloroso imaginar um educador contando os dias para sair da sala de aula porque continuar se tornou insuportável.

A aposentadoria deveria chegar como um tempo de descanso e reconhecimento. Para quem recebe um benefício insuficiente, porém, ela pode trazer outra angústia: fazer contas entre alimentação, moradia e medicamentos. Uma projeção divulgada pelo Instituto Semesp em 2022 apontou que o Brasil poderia enfrentar um déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040.

Também precisamos compreender que os professores não podem, sozinhos, reparar todas as fraturas da sociedade. A escola recebe as consequências da desigualdade, da violência, do abandono e da intolerância. Seus profissionais precisam de uma rede de apoio capaz de cuidar dos estudantes e de sustentar o trabalho pedagógico. Cobrar tudo deles e oferecer tão pouco é uma forma de abandono.

Sempre haverá uma dimensão profundamente humana no ato de ensinar. Está no olhar que percebe uma dificuldade escondida, na palavra que encoraja, na paciência diante de um erro, na descoberta de um talento que nem o próprio estudante reconhecia. Muitos de nós seguimos pela vida amparados por uma frase ou por um gesto de um professor. Às vezes, ele nunca soube o quanto nos ajudou.

Antes do médico que nos atende, do engenheiro que constrói, do jornalista que escreve, houve alguém ensinando a ler, a pensar, a perguntar. Uma sociedade inteira passa pela sala de aula. Ao desvalorizar o professor, ela enfraquece a própria capacidade de continuar.

O futuro pode se apagar aos poucos. Uma turma sem docente. Uma disciplina oferecida de maneira improvisada. Um profissional experiente que desiste. Um jovem preparado que escolhe outro caminho. Uma criança que passa pela escola sem receber o ensino de que precisava. Cada perda pode parecer isolada, mas juntas formam um precipício.

Ainda há tempo de mudar a direção. Isso exige orçamento, continuidade, compromisso público e uma mudança na forma como tratamos quem educa. O professor precisa sentir, no cotidiano, que sua vida importa e que seu trabalho tem valor.

Nesta semana do Dia do Professor, gostaria que cada um de nós se lembrasse de alguém que nos ensinou. Do rosto, da voz, da mão escrevendo no quadro. Da pessoa que repetiu uma explicação até que entendêssemos. Que acreditou em nós quando ainda não sabíamos no que poderíamos nos tornar.

Depois dessa lembrança, precisamos agir. Porque os professores de hoje também estão formando vidas, mesmo quando trabalham cansados, desprotegidos ou esquecidos.

E se os professores acabarem? O mundo desaba junto. O primeiro sinal desse desabamento será uma criança diante de uma sala vazia, esperando alguém que já não virá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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