Jornalista, escritor, colunista do Jornal Extra, da Gazeta de Alagoas e da Tribuna do Sertão, além de presidente do Instituto Cidadão.

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O apoio de apenas um


Há silêncios na política que dizem mais do que longos discursos. E há momentos em que a ausência de uma palavra revela tanto quanto uma declaração pública. Em Alagoas, encerrada a eleição estadual, um fato chama particularmente a atenção: entre os principais protagonistas da disputa, o senador Renan Filho, derrotado na corrida pelo governo, é quem aparece com maior disposição pública para defender a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Do outro lado, chama a atenção a ausência de um engajamento igualmente ostensivo do senador eleito Arthur Lira, do governador eleito JHC e da senadora eleita Marina JHC, também conhecida como Marina Candia. Três vencedores das urnas que, até aqui, não demonstraram o mesmo entusiasmo pela batalha presidencial.

E o Brasil ainda não terminou de votar.

Renan Filho saiu derrotado de uma eleição disputada voto a voto. Recebeu mais de 809 mil votos e perdeu para JHC, que ultrapassou os 892 mil. O resultado encerrou sua tentativa de retornar ao Palácio República dos Palmares, mas não parece ter encerrado sua disposição para continuar participando da disputa política nacional.

Sua manifestação pública em defesa da estratégia de Lula para o segundo turno, logo nos primeiros dias após a eleição, mostra que a derrota estadual não significou afastamento da campanha presidencial.

Renan tem uma trajetória que ultrapassa as fronteiras de Alagoas. Foi governador por dois mandatos, chegou ao Senado e assumiu o Ministério dos Transportes, onde adquiriu projeção nacional, especialmente pela atuação na agenda de infraestrutura rodoviária, concessões e investimentos.

Pode-se discutir seu desempenho, apontar deficiências, cobrar resultados e questionar prioridades. Isso é legítimo. Mas não se pode ignorar a experiência administrativa acumulada nem sua capacidade de comunicação. Renan tem discurso firme, linguagem direta e facilidade para transformar questões técnicas em assuntos compreensíveis à população.

Na política, saber falar ao povo é uma qualidade importante. Saber enfrentar momentos adversos também.

Enquanto Renan permanece publicamente envolvido na campanha presidencial, o comportamento dos vencedores em Alagoas suscita outra discussão: até onde vão os compromissos construídos durante um governo e quando começa a liberdade de cada liderança para seguir caminhos próprios?

É aqui que entra Arthur Lira.

Não se trata de um político qualquer. Lira presidiu a Câmara dos Deputados, comandou negociações decisivas, participou da construção de acordos nacionais e consolidou extraordinária influência sobre a pauta legislativa e as articulações orçamentárias.

Durante o Governo Lula, seu grupo político ocupou espaços relevantes na estrutura federal, participou de negociações sobre indicações e teve acesso aos instrumentos institucionais que permitiram direcionar recursos expressivos para estados e municípios.

É preciso fazer uma distinção: recursos públicos não pertencem ao presidente, ao parlamentar ou a qualquer grupo político. São instrumentos do Estado, sujeitos a regras constitucionais e orçamentárias. Mas as negociações que envolvem esses recursos também possuem uma dimensão política impossível de ignorar.

Lula e Lira mantiveram uma relação marcada por entendimentos, concessões, divergências e interesses recíprocos. O presidente precisava construir maioria parlamentar. Lira precisava preservar influência e espaços de poder. Foi uma relação de conveniências políticas, como tantas outras em Brasília.

Por isso, o silêncio de Lira neste segundo turno merece explicação.

Na minha avaliação, faltou uma manifestação mais clara sobre os compromissos construídos durante esse período. Não necessariamente uma declaração de apoio a Lula, pois ninguém está obrigado a apoiar quem quer que seja. Mas uma explicação política sobre o caminho escolhido.

Se Lira entende que deve preservar independência, que diga. Se prefere apoiar outro candidato, que assuma. Se considera que a neutralidade atende melhor aos interesses de Alagoas, que explique suas razões.

O que não parece razoável é tratar uma eleição presidencial como assunto secundário depois de participar tão intensamente das negociações do governo federal.

Há também uma questão sobre seu futuro no Senado. Arthur Lira chegará à Casa com uma votação expressiva, experiência legislativa e uma poderosa rede de relações. Entretanto, encontrará uma instituição com regras, lideranças e centros de influência diferentes daqueles que conheceu na Câmara.

O prestígio conquistado como presidente de uma Casa não se transfere automaticamente para a outra. No Senado, terá de construir novos entendimentos, disputar espaços e demonstrar capacidade de articulação em um ambiente ocupado por lideranças experientes.

Seu futuro dependerá menos dos títulos que acumulou e mais dos resultados que conseguir produzir.

E JHC?

O governador eleito tem méritos eleitorais que precisam ser reconhecidos. Construiu sua liderança em Maceió, obteve uma reeleição expressiva na prefeitura e conseguiu ampliar sua presença política até conquistar o governo estadual no primeiro turno.

Não foi uma vitória pequena. Tampouco pode ser atribuída exclusivamente às alianças que formou. Houve trabalho político, capacidade de comunicação e identificação com parcelas importantes do eleitorado.

Mas a vitória não elimina a necessidade de posicionamento diante das grandes questões nacionais.

JHC também manteve relações institucionais com o governo federal. Maceió recebeu investimentos e participou de programas e articulações federais, como ocorre com outros municípios brasileiros.

Há ainda um episódio politicamente relevante: a escolha, pelo presidente Lula, da procuradora Marluce Caldas, tia de JHC, para o Superior Tribunal de Justiça.

JHC tem todo o direito de apoiar Lula, apoiar Flávio Bolsonaro ou permanecer neutro. Mas seu silêncio não impede que a sociedade faça perguntas. Afinal, quem se apresenta para governar um estado precisa também explicar sua visão sobre os rumos do país, especialmente quando as decisões de Brasília influenciam diretamente a vida dos alagoanos.

Quanto a Marina Candia, eleita para o Senado na mesma composição política, sua situação exige atenção especial.

A vitória nas urnas lhe confere legitimidade e responsabilidade próprias. Não pode ser considerada apenas uma extensão da liderança de JHC. Terá mandato, atribuições constitucionais e compromissos com todo o estado.

Por isso, seria importante conhecer sua posição sobre o segundo turno, suas prioridades nacionais e a maneira como pretende exercer a independência parlamentar.

O eleitor não escolhe um senador para que ele permaneça permanentemente à sombra de quem o ajudou a chegar ao poder.

Não há ilegalidade nem deslealdade automática nessa escolha.

Mas existe uma diferença entre neutralidade declarada e silêncio estratégico. A primeira é uma posição política que pode ser explicada e debatida. O segundo deixa espaço para interpretações, dúvidas e cobranças.

E esse é o ponto central da questão.

Não estou defendendo que todos devam apoiar Lula. Muito menos que alguém seja obrigado a seguir o caminho escolhido por Renan Filho. Defendo a clareza das posições e o respeito à inteligência dos eleitores.

Por isso, saber como suas principais lideranças se posicionam diante da eleição presidencial não é uma curiosidade menor. É uma questão de transparência política.

Renan Filho escolheu tornar pública sua participação na campanha de Lula. Arthur Lira, JHC e Marina Candia devem ser igualmente avaliados por suas manifestações, decisões e compromissos, inclusive se optarem por uma posição independente.

A democracia não exige unanimidade. Exige responsabilidade.

O eleitor tem direito de saber quem defende o quê, por quais razões e com quais compromissos.

Porque ganhar uma eleição não significa encerrar o dever de prestar contas. E o silêncio, embora seja um direito de qualquer político, também pode ser objeto de legítimo questionamento público.

No fim das contas, a pergunta não é apenas quem estará ao lado de Lula ou de Flávio Bolsonaro.

A pergunta é mais ampla e continuará válida depois da apuração: afinal, diante das grandes decisões do Brasil, onde estarão os representantes de Alagoas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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