O elefante e a formiguinha
Desde que comecei a trabalhar numa casa política, com 18 anos, ficava impressionada com a vaidade dos deputados. Ao se elegerem, chegavam à Assembleia pisando forte. Parecia que tinham sido picados pela mosca azul do poder. Certa vez, um colega nosso foi chamar um deputado de você e ele, aos gritos, respondeu: “Agora sou Excelência, exijo respeito”. Hoje, para um servidor tentar falar com algum parlamentar precisa conhecer alguém do seu gabinete. Recentemente, um candidato ao Governo de Alagoas fez críticas ao presidente do Poder Legislativo. O ofendido fez uma carta aberta ao outro político e terminou dizendo: “Você é minúsculo!” Morri de rir; o moço persegue os pequeninos, corta salários e nem recebe os pobres coitados para se defenderem. Só manda recado: Judicialize! Os pequeninos vão à justiça e esperam meses pela decisão final. Vemos, no momento, os ministros do Supremo Tribunal Federal sendo investigados e, possivelmente, cassados. Um deles condenou centenas de pessoas, dentre elas estavam idosos e cadeirantes. Agora sua arrogância está caindo por terra e ele está desmoralizado.
Já vi muitos políticos perderem a eleição e ficarem desempregados, andando pelas ruas, como simples mortais. Outro dia, encontrei um que mal falava comigo. Parou, abraçou--me e disse: “Prazer em revê-la”. Tomei um susto! As eleições vêm aí! Tempo de abraços, cumprimentos e até dançar forró. Passado período de voto é difícil falar com o eleito. Nós, as formiguinhas, somos tratadas como “rolete chupado”. Muitas vezes, nem somos reconhecidas. A qualidade pouco vista nos políticos é a humildade. Não vejo uma homenagem no Dia do Funcionário Público, no Natal.
Não imagino um parlamentar da Mesa Diretora chamar um servidor prejudicado para conversar, nem dar a ele o direito de defesa. São os elefantes pisando nas formiguinhas. Certa vez, eu era presidente do Velho Sindicato e ajudei a irmã de um deputado que passava necessidades. Recebi um chamado para ir à casa dele, pois precisava conversar comigo. Assustei-me, mas fui. Cheguei perto dele e conversamos durante horas. Queria agradecer-me por ter ajudado à sua irmã. Era um elefante bonzinho!
Outra vez, recebi um recado da Santa Casa de Misericórdia. Um companheiro estava com câncer, em fase terminal, num apartamento do hospital. “Se não fosse a senhora”, disse-me ele, “eu não estaria aqui”. Deus a abençoe. Era a formiguinha fazendo bem a alguém. Tudo na vida passa, só Deus não passa! Não adianta ter poder e dinheiro e castigar os pequeninos. Existe a Lei do Retorno e todos pagarão pelos erros cometidos. Ninguém esperava que os ministros do Supremo Tribunal Federal, tão poderosos, pudessem ser expostos à execração pública. Não podem andar nas ruas se não forem acompanhados por seguranças. São os elefantes perdendo as forças.
Enquanto isso, as formiguinhas estão livres, leves e soltas. Vão à justiça atrás de seus direitos e leem a decisão do juiz garantindo o que elas pediram. Não adianta ser elefante, pisar nas formiguinhas e não deixar que elas se defendam. A força mental supera a força física. Sou formiguinha, com muito prazer, e, mesmo pequenina, continuo lutando por meus direitos! Deus existe. Não duvidem!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



