Caso Braskem: a hora da verdade
Uma eleição deveria ser, em tese, o momento mais propício para que o eleitor avalie, com a maturidade que o exercício da cidadania exige, o desempenho de seus representantes nos últimos quatro anos de mandato e, julgando-o insatisfatório, busque novas alternativas no leque de opções que se lhe oferece. O candidato deveria ser — a priori — o seu genuíno representante: defensor de suas ideias e interesses, comprometido de forma concreta e verificável com suas demandas.
Na prática, observa-se exatamente o contrário. As distorções impostas à democracia brasileira — os argumentos falaciosos, as explicações mal-ajambradas, as leis moldadas por interesses, as práticas políticas e administrativas cada vez mais voltadas contra o cidadão — têm contribuído, de forma acesa, para a deterioração deste país enquanto Nação. A presença de quadrilhas — do crime organizado e do desorganizado — infiltradas no meio político e nas gestões públicas dos três níveis de governo é prova cabal disso: o que era sintoma virou doença crônica, instalada no âmago do nosso corpo social.
Estamos às vésperas de mais uma eleição. E, já que o sistema de divulgação eleitoral não cumpre esse papel — de há muito distorcido e contornado por candidatos e partidos com programas de horário eleitoral talhados sob medida para vender “shampoos”, não as ideias dos candidatos, servindo apenas para que uns e outros se agridam e, ao final, escondam as verdades sobre cada um deles —, é preciso enfrentar o desafio e relembrar ao eleitor quais foram os principais problemas jamais enfrentados a contento por gestores e políticos, e as principais mazelas das quais seguimos distantes de uma solução.
Alagoas é um dos estados mais pobres do Brasil: para onde quer que se aponte o dedo, encontraremos problemas graves. E é nesse universo de carências que um mega problema se sobressai — seja pela grandiosidade de seu impacto social, seja pela ampla repercussão nacional e até internacional, seja, sobretudo, pelo lamentável papel desempenhado pela classe política alagoana neste imbróglio: o Caso Braskem. Um desastre geológico que já expulsou de suas casas mais de 120 mil moradores de Maceió, esvaziou bairros inteiros e, a cada nova etapa, expõe o tamanho do descompromisso de nossos representantes com a cidade e com o estado.
Para os demais problemas — quase tão ou mais graves — que assolam este estado, existem programas, projetos e atividades com orçamento, nem sempre suficiente, destinados a enfrentá--los. Aqui, em primeiro lugar, o que falta é competência de gestão (coisa rara por estas bandas) e, essencialmente, o combate à corrupção interna que grassa nos gabinetes. São, portanto, problemas sanáveis no devido espaço de tempo, desde que os órgãos de fiscalização se façam presentes, a justiça aja como justiça e a tunga generalizada seja sustada.
No Caso Braskem, a história é bem outra. Aqui, o oceano de anomias, prevaricações, traições ao mandato popular e descompromisso com Alagoas e com Maceió foi — e continua sendo — a tônica de nossos políticos, com raras exceções, que serão devidamente apontadas nas próximas semanas. Por trás de cada laudo técnico, de cada linha de indiciamento, há uma família que perdeu a casa em que criou os filhos, o quintal onde plantou uma árvore, a rua onde reconhecia os vizinhos pelo nome. Há quem viva, até hoje, à espera de uma resposta que não chega, entre aluguéis provisórios que se tornaram definitivos e uma indenização que não repõe o que foi perdido. Esse sofrimento não cabe em relatório algum: mora nas ruas de Maceió, e nenhum político tem o direito de fingir que não o vê.
O indiciamento criminal, já decretado pela Polícia Federal, atinge a empresa, seus acionistas controladores e a cúpula diretiva responsável pela mineração predatória do sal-gema: é a própria Polícia Federal, em conclusão formal apurada em inquérito, reconhecendo que houve crime. Enquanto o processo caminha nos autos, milhares de famílias inteiras seguem excluídas de qualquer programa de reparação — sem resposta, sem prazo, sem caminho. São gente de carne e osso, que paga, todos os dias, pelo que outros fizeram e jamais assumiram.
Que o eleitor leve este retrato para dentro da cabine de votação. A pergunta que importa é uma só: quem esteve ao lado da nossa cidade, da capital de Alagoas, quando ela mais precisou? Até a véspera das eleições, novos episódios do Caso Braskem virão à tona, um a um, para que o eleitor de Maceió e de Alagoas responda a essa pergunta com o próprio voto.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



