Crônica de uma morte anunciada: vereador Dr. Luiz Ferreira
Conheci Luiz Ferreira de Souza nos corredores da Casa de Saúde Neves Pinto, um oásis de aprendizado sob a batuta do cirurgião Dr. Dirceu Falcão. Éramos jovens estudantes de medicina, imersos no fascinante e desafiador universo da cura. Luiz, com sua inteligência perspicaz, sarcasmo absoluto e sorriso acolhedor, logo se tornou um amigo querido.
Nossas trajetórias acadêmicas nos conduziram a caminhos distintos, mas complementares. Ele trilhou os meandros da anatomia, desvendando os segredos do corpo humano com a mesma paixão com que sua esposa Rita, dedilhava as teclas do piano, talento este de professora e pianista talentosa, que ele compartilhava: ensinar. Eu me aventurei pelos domínios da cirurgia geral e digestiva. Contudo o elo forjado na juventude médica permaneceu incólume.
A cada novo livro que eu lançava, lá estava Luiz radiante, acompanhado de Rita Namé, que presenteava os convidados de improviso com melodias eruditas de compositores alagoanos. E juntos, como professores universitários e cirurgiões, cultivávamos um Atheneu de conhecimento, para os alunos sedentos por qualificação, investindo tempo e dedicação na formação de futuros colegas.

No entanto, a vida, por vezes, nos prega peças sombrias, tecendo destinos trágicos com fios invisíveis. Luiz, meu amigo de outrora, encontrou um fim inesperado e brutal. Em um cenário político conturbado, sua convicção o levou a tomar posição dissonante, e votar contra os anseios do executivo na sua vereança. Fez oposição ao descalabro e seu voto seria o fiel da balança.
Tal qual na perturbadora narrativa de Gabriel Garcia Márquez, “Cronica de uma Morte Anunciada “, pairava sobre Luiz uma sentença implícita, um prenúncio sombrio, que tragicamente se concretizou. A atmosfera carregada de tensões e rivalidades não deixou espaço para alertas, para um último instante de dissuasão. Ninguém pareceu notar a teia de perigo que se urdia ao seu redor, ou talvez, paralisados pelo medo, preferiram o silêncio covarde.
Assim como Santiago Nasar caminhou para sua fatídica manhã sem vislumbrar a iminente tragédia, Luiz seguiu suas convicções sem perceber a sombra da retaliação que se aproximava. A notícia de sua morte ecoou como um trovão em céu azul, deixando um vazio doloroso e amargo gosto de injustiça, nunca reparado na totalidade.
Na próxima quarta(03/09) , quatorze anos após um assassinato impune continua gritando por justiça, já que todos os envolvidos ainda não foram justiçados. No Brasil, quem combate a corrupção pode ser premiado com a morte estúpida, violenta, da forma mais vil.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA