É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

A professora

06/02/2026 - 12:00
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Texto de Ana Maria Cavalcante – Médica pediatra do Hosp. Univ. da Ufal

Naquela época – passaram pouco mais de cinquenta anos – voltei para casa refazendo as imagens da aula de História. Incrível a Revolução Francesa. Não a confusão que foi o levante, o período de terror, mas a guilhotina. Poderia a guilhotina ser uma invenção de um engenheiro mecânico – eu amanhã. Mas a professora T. comentou que foi um médico, Joseph Guillotin, que, ao defender o direito de uma morte rápida e sem dor, propôs uma lâmina afiadíssima, que seria capaz de separar cabeça e corpo com tamanha rapidez que poupava o condenado dos desprazeres da forca, do esquartejamento, do suplício de uma roda. Não me importei se o trabalho era em equipe para uma apresentação do assunto. Tratei de juntar palitos de picolé, tampa de remédio, cordão, arame, cola, a lâmina do apontador.

Precisava fazer uma guilhotina. Diante de toda a provocação imaginativa na sala de aula, eu levaria uma guilhotina para a aula seguinte.

Diante da guilhotina, a professora T. parecia ter recebido o melhor presente. Sobre o birô, repetia o movimento de decapitação ajustando o balde (tampa de remédio) que receberia a cabeça do/a condenado/a. Abstração completa. O reconhecimento da professora, a atenção para a guilhotina-brinquedo foi uma forma de aprovar minha invenção e incentivar os estudos seguintes. A França era sempre alvo do currículo ginasial. Não estudávamos as questões conflituosas latino-americanas ou, se as estudávamos, não houve glamour que merecesse a lembrança.

Ela chegava com passos firmes, pontualmente, com alguma roupa previsível, impecavelmente bem passada. Maquiada, cabelos presos, óculos, um colar. Um aluno trazia seu cavalete da secretaria até a sala de aula. Fazia a chamada sem perder tempo e começava: “Vamos à... França!!!”. E assim começava a aula. Assim aconteceu com a história da guilhotina.

– Como se deu o ápice da Revolução Francesa? – Perguntava rapidamente a época e ao mesmo tempo voltava à página do álbum que confirmava a resposta da turma, uníssona e envolvida. A turma adolescente comparava os breves momentos inesquecíveis com a professora T. a outras aulas intermináveis.

Se professora sabia cativar a mim, quão felizes deveriam ser seus filhos.

Um dia qualquer, na saída de escola, vi um homem encostado num Fusca. Duas crianças insistiam para sair, fazia calor. Ele perguntou se preferiam continuar dentro do carro ou sair levando um cocorote. Pediram o cocorote e a licença para brincar. Observei indignado aquele homem aplicar sobre cada cabeça um golpe contundente não com os nós dos dedos, como haveria de ser um cocorote, mas com a chave do carro. Uma dor antes, a liberdade de sair do pequeno automóvel e voar na imaginação, depois.

Depois veio a Professora T. Era a pessoa esperada pelo homem.

Pensei na guilhotina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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