A Luz que se Apaga
Em um dia cinzento, o dia 31 de janeiro de 2026, nos despedimos de Carlos Alberto
Fonseca, um psiquiatra que transcendia a mera profissão. Ele não era apenas um médico, mas um farol de humanidade em um mundo muitas vezes frio e impessoal. Sua abordagem acolhedora e profundamente empática era um remédio em si, oferecendo conforto às almas aflitas que buscavam sua ajuda.
Carlos teve um dom especial: a capacidade de antecipar não apenas os efeitos colaterais dos medicamentos, mas também as fragilidades da vida humana. Ele sabia que por trás de cada diagnóstico, havia uma pessoa, com dores e desejos, medos e esperanças. Para ele, a sexualidade era um aspecto fundamental da psique humana, algo que tratado com humanidade poderia ser a chave para restaurar o equilíbrio na vida de seus pacientes.
Ele dizia: “Antes que você sinta o peso da disfunção erétil, lembre-se de que você é humano, e sua necessidade de amor é tão válida quanto a de qualquer outro”.
Nascido e criado na bela Maceió, Carlos brilhou intensamente no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, onde deixou um legado indelével. Após anos de dedicação em São Paulo, ele voltou ao seu lar, onde a notoriedade conquistada se transformou em amor e carinho, tanto de seus pacientes quanto de seus alunos na Universidade Federal de Alagoas. Em cada aula e em cada consulta, Carlos irradiava felicidade; era visível que ele amava o que fazia.

Minha relação com Carlos foi marcada por um momento de profunda transformação. A separação da minha esposa foi uma das experiências mais dolorosas que já enfrentei. Com apenas 5 e 7 anos, minhas filhas enfrentavam a turbulência de um lar dividido, e eu me via perdido em meio a essa tempestade emocional. Foi Carlos quem me ajudou a encontrar um caminho entre a dor e a esperança. Com uma sabedoria serena, ele me disse: “O amor acaba, mas isso não é um fim. É uma nova chance de recomeço”.
A frase, simples mas poderosa, ecoou em minha mente durante semanas. Ele não apenas me preparou para a inevitabilidade da separação, mas também me encorajou a considerar novos relacionamentos, assim como ele, que também havia reescrito sua própria história de amor. Sua visão era de um ciclo natural da vida, em que as dores eram oportunidades disfarçadas.
Carlos Alberto Fonseca não será lembrado apenas como um médico talentoso, mas como um ser humano que compreendeu a complexidade da vida e a importância de abraçá-la em todas as suas nuances. Sua luz pode ter se apagado neste mundo, mas seu legado viverá nas lições que deixou e nas vidas que tocou. Hoje, enquanto reflito sobre sua partida, percebo que ele me ensinou não apenas a aceitar a dor, mas a buscar a vida que ainda espera por nós. Isso é amor em sua forma mais verdadeira: a capacidade de continuar, mesmo quando um capítulo se encerra.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



