É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), cirurgião especializado em cirurgia digestiva e membro do Conselho Editorial do Journal of Gastrintestinal Surgery OPEN (EUA). Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

O motorista de aplicativo e os imperativos categóricos


Eu tinha acabado de prestigiar uma posse no Instituto Histórico de Alagoas e convoquei um transporte de aplicativo. Meu carro estava no estaleiro, abalroado por um motoqueiro apressado. São os gladiadores modernos.

O motorista começou a fazer comentários sobre a pressa e o engarrafamento da Avenida Fernandes Lima às dezoito horas, enquanto eu o municiava com as melhores opções para chegar ao meu destino, seguindo as indicações dos mapas digitais.

De repente, o motorista comentou minha conversa e disse:

— São os imperativos categóricos!

Fiquei imediatamente tonto, atônito, pasmo e fora do eixo. Meu piloto automático travou. Meu motorista de aplicativo conhecia os imperativos categóricos de Kant?

— Sim, tinha lido!

Eita, descobri que posso estar com um professor ou filósofo. Fiquei envergonhado com meu preconceito intelectual e com a “invisibilidade” de quem nos presta serviços.

O encontro entre a filosofia transcendental de Kant e o cotidiano pragmático de um Uber cria um contraste riquíssimo.

Uma das formulações mais famosas do Imperativo Categórico de Kant diz: “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.”

Tratamos o motorista apenas como um “meio”, um instrumento para nos levar do ponto A ao B. O choque ocorre quando a voz dele rompe essa utilidade e se revela uma consciência plena.

Ele deixou de ser uma peça do aplicativo para ser um filósofo.

O Imperativo Categórico busca uma lei moral que possa ser universalizada. Como seria o trânsito — ou o mundo — se todos agissem segundo a máxima que aquele motorista estava seguindo?

Pode-se explorar a ironia de encontrar uma ética tão rigorosa em um ambiente muitas vezes caótico e impessoal como o trânsito das grandes cidades.

Foi o momento em que o cronista olhou para o próprio espelho e percebeu seu preconceito de classe ou acadêmico. Eu o subestimei, e o “ignorante” da história, ironicamente, acaba sendo quem não esperava a profundidade do outro: eu próprio.

O táxi era como uma torre de marfim. Havia um contraste entre o barulho lá fora — buzinas, pressa, o asfalto — e a densidade do assunto lá dentro,

É uma “disputa” entre o mundo fenomênico, aquilo que vemos — o trânsito —, e o mundo noumênico, a essência, o pensamento do motorista.

Aquele homem, entre uma corrida e outra, talvez no rádio ou em audiobooks, digere ideias que muitos estudantes universitários evitam.

Isso humaniza o motorista e critica uma sociedade que rotula quem pode ou não ter acesso à “alta cultura”.

Conclusão: a filosofia não pertence à academia, mas à vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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