Carnaval, novo vírus e a imprudência que insiste em nos ameaçar
O vírus Nipah voltou ao noticiário internacional após novos casos confirmados na Índia. Não há registro no Brasil. O próprio Ministério da Saúde afirma que o risco é baixo. A Organização Mundial da Saúde classifica o patógeno como prioritário para pesquisa, pela alta letalidade e ausência de vacina. Até aqui, fatos. O resto é escolha política.
O problema nunca foi apenas o vírus. O problema é a cultura da reação tardia.O Brasil é especialista em agir depois da tragédia. Foi assim com a Covid-19: negacionismo oficial, disputas ideológicas, descrédito à ciência, guerra de narrativas. Quando a realidade impôs silêncio aos discursos, o país já chorava centenas de milhares de mortos. A memória ainda está fresca, mas a imprudência parece eterna.
O Nipah não é, neste momento, uma ameaça concreta ao território brasileiro. Não possui a mesma transmissibilidade respiratória do Sars-CoV-2. Seus surtos, até aqui, foram localizados. Mas a letalidade elevada e a possibilidade de transmissão entre humanos em ambientes hospitalares são suficientes para exigir vigilância máxima. Vigilância que custa dinheiro. E dinheiro não rende voto.
Em ano de festas grandiosas, de blocos superlotados, de aeroportos congestionados, o Brasil celebra e deve celebrar. Carnaval é cultura, é economia, é identidade nacional. Mas saúde pública não pode ser tratada como figurante da folia. A tentação de minimizar riscos para não “estragar o clima” é politicamente conveniente. E perigosamente irresponsável.
Temos instituições competentes, como a Fundação Oswaldo Cruz, capazes de monitorar vírus emergentes com excelência técnica. Temos protocolos aprimorados desde a pandemia. O que falta, muitas vezes é continuidade de investimento, coordenação federativa e comunicação transparente. Falta transformar aprendizado em política de Estado e não em reação emergencial.
Há ainda um ingrediente tóxico: a desinformação. Redes sociais transformam qualquer surto distante em cenário apocalíptico ou, no extremo oposto, em “invenção alarmista”. Entre o pânico e o deboche, a racionalidade fica espremida. O poder público precisa falar cedo, falar claro e falar com dados. Silêncio ou improviso alimentam teorias e corroem confiança.
Não se trata de cancelar o Carnaval. Trata-se de reforçar monitoramento em aeroportos, capacitar equipes hospitalares para identificar sintomas atípicos, manter protocolos de resposta rápida e investir em pesquisa. Trata-se de compreender que prevenção não aparece em palanque mas salva vidas.
A maior temeridade não é o vírus. É a soberba institucional. É a crença recorrente de que “aqui não chega”. O mundo globalizado encurtou distâncias. A vigilância precisa acompanhar essa velocidade.
O Brasil tem ciência. O Brasil tem experiência. O Brasil tem memória recente de dor.Resta saber se terá prudência.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



