Cora Coralina na Bienal
Tinha acabado de deixar o stand da Academia Alagoana de Letras, no segundo dia de Bienal, para abraçar a diva da arte naïf alagoana e brasileira, Tânia Pedrosa, e adquirir seu livro “A arte brasileira”, em 4ª edição, pela editora Prudência, do intelectual Juarez Gomes de Barros. Irrompi, no largo em frente, e Cora Coralina – leia-se Yvanete Lima, 96 anos – estava lançando seu livro “À árvore da estrada”, pela CBA Editora. Apoiada em sua lucidez pela neta escudeira Rebeca, a qual denomina “meu laço azul”.
Sua filosofia de vida é baseada em Santa Terezinha, sob o olhar da fé e a vida simples, bastando apenas mirar a natureza e segui-la.
O livro é uma coletânea de poemas, premiados em concurso nacional, e muitos publicados no “Caderno Saber” da Gazeta de Alagoas.
A grande força que irradia da autora é o gosto pela vida, que se derrama do altar dos seus 96 anos completos em plena lucidez. Que insiste em e exige manter sua dignidade até o fim, queimada como chama, como vela, até o final. A herança biológica presenteou-a com uma neta intelectual e com sensibilidade de escritora.
Cora Coralina, todos conhecem, foi a poetisa goiana dos versos de “A casa velha da ponte”, em Goiás Velho, apresentada ao palco nacional por Carlos Drummond de Andrade.

Quando eu era muito jovem, por volta dos 40 anos, li uma crônica, “O calo da velhice”, em que Otto Lara Resende assinalava que idoso era um eufemismo de velho e se o eufemismo existia, a palavra era considerada feia. Ele cita dona Ilka Fleury, que diz que ser idoso é um castigo social e financeiro. Minha tia, Madre Evangelina, superiora das Irmãs Franciscanas em São Paulo, insistia: “Velho é caro”. Eu, na casa da vintena, ria desbragadamente, virava de rir. Além de ser um castigo social e financeiro, é também um castigo biológico, do qual ninguém escapa. A não ser que caia na pior tragédia: morrer jovem.
“Não há tragédia mais abominável”, urra a atriz Fernanda Montenegro. Otto recomendava que se lesse o livro “A Velhice”, de Simone de Beauvoir, antes dos cinquenta anos. Ela denunciava a precária situação dos velhos franceses, imaginem no Terceiro Mundo. Porque dizia a dignidade da velhice haveria de ser mantida até o fim. Eu comprei o livro aos 40 e, ressabiado com o prognóstico, mantive-o no limbo da minha estante. Até que acordei e já estava aos 49 anos. Resisti, mas mergulhei no livro.
A mensagem de Simone de Beauvoir era menos pessimista que a de Norberto Bobbio no seu “Tempo de Memória”, e não tão otimista quando Cícero, o cônsul romano, no seu opúsculo “saber envelhecer”, desde 63 anos antes de Cristo. Simone era realista, mas tinha laivos otimistas, citando exemplos como Michelangelo, que trabalhou até os seus 89 anos. Respirei, e vi que a desgraça era menor que a imaginada e difundida sem piedade por Pedro Nava: “De que adianta ser um Lamborghini com os faróis virados para trás?”.
Com Yvanete, há espaços para felicidade na velhice, principalmente se se tem uma neta Rebeca; no meu caso, Vinicius, o neto que veio primeiro e herdou tudo do avô. Aos seis anos já comanda a Alexa para me alegrar: “Vovô você gosta de orquestra. Esse aqui, você gosta” – era Mozart e sua “Pequena serenata musical”, a quem disse que amava porque era alegre.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



