Malu Gaspar, jornalista sendo jornalista
Reafirmo, com a lucidez de Nelson Porto, a frase que atravessa gerações do bom jornalismo: “quem entrega a fonte é água mineral”, jornalista, jamais. Em tempos de intimidação velada, ataques retóricos e tentativas de constranger a imprensa, é fundamental recolocar o debate no trilho certo. O assunto que domina a cena pública nos últimos dias são as denúncias publicadas por Malu Gaspar, no jornal O Globo, envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. O conteúdo é sério, documentado e, por isso mesmo, exige respostas claras, não ataques laterais.
As acusações trazem à luz questionamentos sobre a relação profissional de Viviane Barci de Moraes com o Banco Master, por meio de um contrato que pode alcançar R$ 129 milhões, com honorários mensais que chegam a R$ 3,6 milhões, em vigor desde o início de 2024. Trata-se de um volume de recursos absolutamente fora da curva da realidade brasileira. Diante disso, a sociedade tem o direito e o dever de perguntar: quais serviços foram efetivamente prestados?
Quais entregas técnicas justificam esses valores? Em que consiste, de forma objetiva, a chamada “assessoria e consultoria”?
Não se trata de prejulgamento, muito menos de perseguição pessoal. Trata-se de transparência, princípio basilar do Estado Democrático de Direito. Autoridades públicas, sobretudo aquelas que ocupam posições centrais no sistema de Justiça, devem explicações. O silêncio, nesse contexto, não protege instituições; ao contrário, alimenta suspeitas
e fragiliza a confiança pública.
É preciso deixar claro, também, um ponto que alguns insistem em distorcer: o sigilo da fonte é cláusula constitucional. O artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal garante o acesso à informação e protege, de forma inequívoca, a identidade do informante. O jornalista não é auxiliar de investigação, não é promotor, não é juiz.
Não lhe cabe produzir provas nos moldes do processo judicial, tampouco revelar suas fontes para satisfazer a curiosidade ou a conveniência do poder.
A colega cobra explicações que ainda não vieram e que precisam vir.
Essa cobrança é legítima, profissional e necessária. Quando a imprensa cumpre seu papel fiscalizador, fortalece a democracia; quando é intimidada, todos perdem. Tentar inverter a lógica, exigindo a revelação da fonte, é atacar o mensageiro para fugir do conteúdo da mensagem, expediente velho, autoritário e conhecido.
A reportagem não agride a Constituição; a concretiza. É exatamente para assegurar esse tipo de atuação que o texto constitucional consagrou direitos fundamentais como cláusulas pétreas intangíveis, invioláveis, inegociáveis. Quem não suporta o escrutínio público talvez não esteja à altura do cargo que ocupa.
No fim das contas, a jornalista fez o que se espera de qualquer profissional sério da imprensa: denunciou fatos de interesse público e cobrou respostas. Quanto à obsessão em descobrir quem falou, vale repetir, com ironia e precisão, a lição de Nelson Porto: “quem
entrega a fonte é água mineral,” jornalista, não. O jornalismo existe para servir à sociedade, não para ajoelhar-se diante do poder, ainda que este se vista de toga ou se esconda atrás do prestígio institucional.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



