colunista

Elias Fragoso

Elias Fragoso é formado em Economia pela Universidade Federal de Alagoas e especialista em Desenvolvimento Organizacional e Administração e Negócios

Conteúdo Opinativo

OPINIÃO

Esperteza demais engole o esperto

03/12/2023 - 08:30
Atualização: 03/12/2023 - 08:37

ACESSIBILIDADE

Afrânio Bastos
Mina 18, da Braskem, no bairro do Mutange
Mina 18, da Braskem, no bairro do Mutange

Antes que, mais uma vez, venham me acusar de ser contra A ou a favor de B, vou repetir o que é para mim o meu mantra de vida após meu retorno a Maceió: o meu compromisso é unicamente com Maceió, minha terra natal tão vilipendiada ultimamente e com Alagoas o torrão da minha ancestralidade recente. E nada mais. Ponto.

Não tenho nenhum prazer ou interesse em expor as vísceras de certas situações ocorridas na Maceió de Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Guimarães Passos, Lêdo Ivo. De Deodoro, Floriano, Bonifácio da Silveira, Dias Cabral, Thomaz Espíndola, Craveiro Costa, Théo Brandão, Teotônio Vilela, Ivan Fernandes Lima, Douglas Apratto, Carlito Rocha, Djavan e de tantos, tantos outros de igual ou ainda maior relevo.

Mas não dá para calar, até em respeito a essas e às demais grandes figuras das letras, cultura, artes, esportes, da política e, em especial, neste caso às 148.400 pessoas que foram afetadas de forma direta e inexorável pelo megadesastre provocado pela Braskem, e a população de Maceió, quando leio na manchete do EXTRA de ontem à noite que o prefeito da Capital declarou que “ O DANO CAUSADO PELA BRASKEM É IMPAGÁVEL, IRRECUPERÁVEL”.

Como assim? Não tô entendendo mais nada.

Não foi esse mesmo senhor que há poucos dias deu quitação à Braskem pelos prejuízos que ela causou a Maceió? Não foi ele que trocou aproximadamente 8 bilhões de passivo da Braskem com Maceió por 1,7 bilhão de reais dos quais a empresa se apropriou irregularmente de 700 milhões de reais e ele não deu um pio sequer sobre essa barbaridade? Não foi ele quem candidamente doou – sabe-se lá por que razões – à Braskem ruas, avenidas, praças e outros logradouros da área afetada pela própria empresa? Não foi ele que aderiu – mesmo sabendo de todos os prejuízos que isso causaria a cidade, hoje e no futuro – ao famigerado acordo Braskem-MPF onde a empresa leva tudo e o resto, nada leva?

Não foi ele que através da Defesa Civil Municipal vinha impedindo que o mapa com a expansão da nova área de inclusão fosse tornado público em beneficio de milhares de outras famílias que vivem a tragédia da espera no território do nem-nem. Nem estão na área de inclusão, nem tem como de lá sair (a imprensa deveria ir atrás da data em que a prefeitura/defesa civil municipal recebeu o mapa e guardou a informação a sete chaves em beneficio da Braskem...).

Não foi esse mesmo prefeito que descumpriu o acordo pré-eleitoral que tinha com os afetados, deixando-os na mão, a ver navios e se aliando à Braskem? Não é ele quem está forçando a barra para que os infelizes moradores dos Flexais, do resto do Bom Parto fora da área de inclusão e da Vila Saem (que querem sair do inferno onde estão) continuem morando nas mesmas localidades numa atitude para dizer o mínimo, desumana?

Pois é...

Mas o Alcaide não se faz de rogado: foi para a televisão para, em tom meio blasé, dizer que “o crime ambiental causado pela Braskem é irrecuperável”. Irrecuperável por que cara-pálida? Ou o senhor está tentando tirar o corpo de fora por ter entregado a cidade à Braskem por uma merreca e agora não ter grana para fazê-la renascer? Mas não se preocupem os maceioenses. Até onde se sabe a proposta que está em mãos do governo do estado para negociação com a Braskem resgata tudo que foi deixado para trás pela prefeitura.

O prefeito ainda afirmou: “que a dívida contraída pela empresa é impagável” Como assim?! Ele não recebeu e deu quitação à Braskem por valor infinitesimal à dívida real da empresa com Maceió?!). Alcaide, todos os prejuízos causados pela Braskem em Maceió e em Alagoas estão devidamente levantados e em poder do governo de Alagoas para ser negociado com a empresa. E esse montante está na faixa de 30 bilhões de reais. Quase 18 vezes mais do que o senhor estimou (1,7 bi de reais) e 30 vezes mais daquilo que o senhor efetivamente recebeu (1 bi de reais).

O prefeito estava num dia de “fúria” estudada quando afirmou na mesma entrevista de forma taxativa que “a empresa precisa ser responsabilizada por todos os danos causados na capital alagoana”. E aí, perguntamos: o senhor teve há pouco mais de 30 dias, durante as negociações para o acordo (sic!) com a Braskem em relação à Maceió, a oportunidade de exercitar esse seu discurso. Por que não o fez? O senhor acha que as pessoas são o que? Tenha mais respeito por nós, cidadãos, e em especial pelos 144.800 afetados, por quem o senhor nada fez, nunca.

E, lá pelas conclusões da sua fala, ele afirma que “estamos dialogando com diversas estratégias” (seja lá o que isso venha a ser) para logo em seguida “tirar o corpo” da sua atitude de entregar Maceió à Braskem perdoando-a dos danos materiais que a empresa causou à cidade em troca de merreca: “Não é só o dano material na área” (perceberam, a “sabedoria”?), e continua candidamente: “mas é o dano social”. Que ele certamente vai querer buscar para a prefeitura quando essa grana não pertence ao município e sim aos afetados.

Torço para que essas linhas cheguem aos afetados, ao menos às suas lideranças, para que eles saibam com o que estão lidando. Alerta que serve para os maceioenses e ao próprio governo do estado.

Chega desse tipo de políticagem. Argh!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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