colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

Um conto de Natal


Lá pelos idos de 40 nasceu em Jaraguá, bairro de Maceió, uma menina loirinha, feinha e sonhadora. Parece que Deus iluminou a mente da garota. Sempre pensou muito e olhava o futuro com visões mirabolantes. Infância feliz é a base de uma boa vida, bem estruturada. Seus pais eram um casal firme e apaixonado um pelo outro. Dessa união nasceram dez filhos, dos quais oito sobreviveram. A criação dos rebentos foi baseada na lei dos homens e todos se tornaram adultos normais.

A menina foi se transformando numa adolescente sadia e consciente de suas obrigações. Aos doze anos já trabalhava com seu pai num escritório de contabilidade e ajudava sua mãe na criação dos irmãos.

A família sempre viveu bem, pois o chefe, além de ser auditor fiscal federal, procurava outros meios de auxiliar na sobrevivência. De 1939 a 1962 nasceram os filhos. O casal contava com os mais velhos educando os mais novos.

A menina estudava e começou a namorar. Tímida, nunca esqueceu o primeiro presente que ganhou de Papai Noel: uma boneca negra. Foi a primeira lição que recebeu de seu pai: não ter preconceito racial.

Ia ao colégio conduzindo pela mão duas irmãs mais novas. Estudava com elas, orientando seus deveres de casa e nos fins de semana as levava para os divertimentos da época: praia e cinema.

De repente, a jovem casa e passa a ter filhos. Dessa feita, criados na lei dos homens e na lei de Deus. Suas quatro “pedrinhas de fogo”, dois danados e duas danadas, se transformaram na alegria da jovem mãe. O casal viveu em vários estados do Brasil graças à profissão do marido e os filhos foram misturando sotaques e hábitos diferentes. O tempo foi passando, as crianças se tornaram adultas e aprendendo a viver segundo suas escolhas.

Como nem tudo são flores, os momentos ruins foram aparecendo. O casal sobrevivendo, aprendendo a enfrentar os obstáculos. O saldo era positivo e a ajuda de Deus foi importante. Entretanto, a jovem senhora passou para os filhos a ideia de que Papai Noel existe e não tira da criatura o direito de sonhar. Todo ano, no Natal, ela passava uma mensagem para os filhos, alimentando novos sonhos.

E a jovem senhora envelheceu, ficou cheia de netos e bisnetos. Sofreu uma grande dor: Papai do Céu levou seu filho João, aos 56 anos, já avô de uma linda menininha. Não fosse o apoio do marido, dos filhos, de parentes e amigos, ela, a “Velhinha das Alagoas”, não suportaria tamanho sofrimento. Está viva, chorosa, mas curtindo os que ficaram.

Eis que está chegando um novo Natal. E o casal velho, mas lúcido, cuida de suas obrigações, consegue sobreviver graças a médicos e remédios. Esperará o Papai Noel no dia 25 de dezembro, reunirá parte da família e pedirá forças ao “Bom Velhinho” para enfrentar o fim de vida.

As alegrias são muitas: o neto mais novo que foi crismado, outro que terminou medicina, a bisneta que fez aniversário, os filhos bem presentes e saudáveis. Espera que não venham tristezas.

O “Bom Velhinho” poderia trazer mente limpa para os políticos que só pensam neles e o fim da violência urbana no país inteiro.

Papai Noel, velhinho bondoso, traga saúde para meus parentes e amigos. Preciso apenas de coragem para perdoar alguns, mas não desejo mal a ninguém; até rezo pela saúde deles.

Feliz Natal para todos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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